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Lucas Fidelis: Cem anos de abolição e sonhos

“A vida é feita de momentos fugazes; mas são esses momentos que dão sentido a nossa existência.” (Cem anos de solidão)

Muitos anos depois, diante das cicatrizes da opressão, Arthur Camilo Silvério havia de recordar aquela tarde remota em que, quedou-se, açoitado, com violência desmedida, pela insistência de uma negativa, de seu próprio padrinho, em comparecer ao enterro de seu pai, Camilo Silvério da Silva.

Mesmo alforriado, e, sob a proteção da Lei de Ventre Livre, ratificada pela Regente Princesa Isabel, Arthur estava, até então, condenado pelo regime de escravidão. A fuga fez-se, absolutamente, necessária. Num instinto indelevelmente atávico de sobrevivência carregado por todos os infortúnios e agruras sofridos por seus ancestrais e antepassados.
Arthur Camilo, exposto às amarguras da vida na carne, projetou suas profundas reflexões aos seus pais- ruminações e resgates tão vívidos desde as lutas de Zumbi dos Palmares até às obras representativas de Jean-Baptiste Debret.

Camilo Silvério, seu pai; traficado em meados do século XIX, vindo de Angola, para deter-se em um povoado na Mata do Macuco. Camilo casou-se com a escrava alforriada Felisbima Rita Cândida. Da união, seis filhos, dentre eles, Arthur.

De Arthur, com Carmelinda Maria da Silva, fez-se “Os Arturos”. Comunidade familiar, tradicional, de ascendência negra. Dos frutos da união, estabeleceu-se mais de centena de famílias e cerca de quinhentos descendentes e agregados, com a devoção incondicional a Nossa Senhora do Rosário. Instalados desde o século XIX, em 6,5 hectares, no Município de Contagem; e há mais de 130 anos, a comunidade segue a saga e herança cultural que foi transmitida pelo seu fundador.

Os Cem anos como título, obviamente, delineia uma condição estética e literária, por assim dizer. E se, o espírito do texto, permeia, sob a atmosfera do realismo fantástico de Gabriel García Márquez, este, entrelaça-se, o sentimento de pertencimento da Comunidade dos Arturos com as terras de Macondo. Das semelhanças da árvore genealógica, com as suas linhas geracionais extensas, até os vieses de luta e resistência. Ademais, similitudes refletidas na solidão e segregação individual e coletiva experimentada por muitos na América Latina durante períodos turbulentos da história, como, as guerras, as ditaduras, os regimes políticos, o militarismo, a repressão, e a miséria, causadas, pela ausência estatal; e a precarização imposta sistematicamente pelas potências centrais. Da mesma forma, nos quilombos brasileiros, os quilombolas, muitas vezes, buscavam isolamento para escapar da opressão e construir suas próprias comunidades autossustentáveis. Arthur Camilo e Carmelinda da Silva confundem-se com José Arcádio Buendía e Úrsula Iguarán, na medida em que há inquietação arraigada na alma dos patriarcas; e as matriarcas se forjando como espinha dorsal hígida atravessando gerações e transmitindo costumes e tradições, como maestras da sabedoria, com a força e perspicácia em que lhe são inerentes.

Por falar em tradições, realçam-se as festividades arturenses. Dos eventos, o Batuque (reconhecido como forma de expressão artística pelo Ministério da Cultura, que nomeou Dona Conceição Natalícia como mestre do batuque), a Folia de Reis, o Candombe, o Reinado de Nossa Senhora do Rosário, a Festa da Abolição e a Festa do João do Mato. A guarida sempre atenta das Guardas de Congo e Moçambique. A apresentação dos festejos, o tinido, e a cadência ditada, pelo ressoar dos tambores, reverberam nos percursos caóticos dos ventos.

Das reminiscências da terceira geração, Antônio Maria da Silva e Mário Braz da Luz fizeram-se transcender em tempos recentes. Da luz subiram aos céus. Tal qual Remédios Buendía, a Bela, personagem do realismo mágico de García Márquez, que teve sua ascensão aos mistérios celestes, em corpo e alma.

Recordo-me bem de eventuais idas à Comunidade dos Arturos em que me deparava com Seu Antônio sentado defronte à porta principal de seus aposentos. Em diálogos enrobustecidos de sapiência, o Capitão Regente trazia ao cenário suas nostalgias e profundidades, espalhando a arte da oralidade. Enquanto isso, as crianças brincavam. Dona Lia e alguns membros da comunidade preparavam a cozinha e os sabores dos ascendentes.

Os Arturos resistem bravamente. Os discursos de ódio estão sempre à espreita. A especulação imobiliária avança sorrateiramente. Mas a Constituição Cidadã garante seu espaço e sua propriedade definitiva, elencado sob a égide do artigo 68 da ADCT que dispõe que “Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos”.

A Comunidade, bem como expressões e festividades, também foi reconhecida como Patrimônio Imaterial do Estado de Minas Gerais pelo Conselho Estadual de Patrimônio (CONEP). É muito importante mencionar sobre as questões das comunidades quilombolas de Alcântara que estão sob o bastão da Corte Interamericana de Direitos Humanos- CIDH para deliberações de reclamadas violações.

É inegável que ainda falta muito para que o Estado brasileiro viabilize e reconheça as propriedades das comunidades quilombolas espalhadas pelo país.

Para não dizer que não falei do nosso quintal, o Município de Contagem, sob a liderança de Marília Campos, abraça a causa e direciona vários estímulos. Desde a intensa campanha, para a readequação do Rodoanel, que, pelo projeto, inicialmente proposto, impactaria de maneira deletéria o espaço da comunidade. Até à participação do programa, “Minas para Sempre”, realizado pelo Ministério Público de Minas Gerais em que viabilizou recursos, de medidas compensatórias, para a requalificação das edificações conhecidas como “Casa Paterna” e da Capela Nossa Senhora do Rosário.

Ao fim e ao cabo, se o rincão fictício, do Prêmio Nobel colombiano, e a Comunidade dos Arturos, apresentam, diversas semelhanças, na sua mais recôndita essência, as suas fundamentais diferenças também se revelam evidentes. E se, no romance, da condição metafórica latino-americana, se desnuda com a derrocada de Macondo sob a sentença de que “…tudo o que estava escrito neles era irrepetível desde sempre e por todo o sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra.”, a Comunidade quilombola, do patriarca Arthur, ao revés, vislumbra seus caminhos para a consolidação de seu torrão. Sobre a sua terra, seus sonhos florescem como sementes de resistência. O banto reverbera suas vozes caladas e oprimidas por séculos a fio. O tambor ressoa a resiliência e resistência da ancestralidade. As raízes profundas da história permanecem intactas. E a esperança se torna um trunfo para a epifania.

Lucas Corrêa Fidelis é advogado e servidor público.

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