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Lucas Corrêa Fidelis: Big Stick pela culatra

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Theodore Roosevelt, 26º presidente dos Estados Unidos, inaugurou uma modalidade não tão inédita à época de política externa nos EUA em um discurso, numa feira no estado de Minnesotta, seguindo um viés da Doutrina Monroe, doze dias antes do assassinato do então presidente William McKinley, como num prenúncio político. Utilizou-se, dessa feita, do provérbio africano “fale com suavidade e tenha à mão um grande porrete” para expressar uma tendência de trato diplomático a partir daquele momento com os países da América Latina. Em suma, ou as nações periféricas latino-americanas, já devastadas pela colonização, aceitavam uma saída diplomática com os interesses norte-americanos sendo priorizados, ou o grande porrete estaria pronto para a marretada em suas estruturas constituídas.

E é dessa política do Big Stick (Grande Porrete) que Donald Trump, atual mandatário estadunidense, tem-se aproveitado para conduzir sua política global. E de maneira um tanto quanto agressiva, diga-se; subvertendo-se, aliás, a máxima da retórica inicial suave que fora preconizada por Roosevelt.

Decerto que a postura no segundo mandato é um tanto mais colérica do que se fez no primeiro, embora, naquele momento, o modus operandi tenha sido consistente pela reverberação e influência exercidas para uma nova onda de modos autoritários e negacionistas por eleitores, governantes, autoridades e instituições ao redor do globo, demonstrando-se, assim, contundentemente, que a terra do Tio Sam ainda se mostra como condutora de inclinações e, sobretudo, se afere como um termômetro global ideológico.

O presidente atual dos Estados Unidos da América impõe-se numa agenda de atos autoritários e unilaterais, desprezando-se, desse modo, quaisquer sistemas de freios e contrapesos, além de consensos/tratados multilaterais, imprimindo-se, dessa forma, uma deveras instabilidade nos contornos sociais, institucionais e econômicos na ordem mundial. Sua predileção vem se mostrando pela guerra comercial na instituição de tarifaços a seu bel-prazer no intuito da hegemonia ianque pelo enfraquecimento econômico de países consolidados e emergentes, sem análises ou critérios científicos, muitas das vezes objetivando a especulação com finalidades obscuras no mercado financeiro, e pela retaliação por aqueles que agem de encontro aos seus anseios mesquinhos e de verve ditatorial.

O Brasil, para citar um grande exemplo, se viu encurralado pelas últimas ações do mandatário estadunidense com a imposição de 50% de tarifa nas relações comerciais- sem falar nas investigações infundadas por supostas práticas comerciais desleais-, mesmo havendo superavitariedade do país anglo-saxão, exprimindo-se, nessa oportunidade, uma explícita represália ao julgamento instalado pela Suprema Corte em face de políticos que estão num mesmo espectro de interesses de sua agenda. O que também se pode inferir que seja um pretexto superficial de um objetivo maior que seria a dissipação de influência do emergente BRICS. Uma afronta, por assim dizer, unilateral-transnacional de ingerência à soberania e às instituições democráticas de um Estado.

No entanto, o que se tem percebido é que os referidos atos arbitrários, ao revés de potencializar sua política, têm sido refratários diante da opinião pública. No caso específico do Brasil, o presidente Lula teve sua popularidade aumentada quando na oportunidade do momento politizou e reforçou o respeito pela indelével soberania do país. Há de se dizer ainda que a população dos EUA tem reprovado sistematicamente os desvarios de Trump, minando sobremaneira seu capital político e abrindo espaço para que a atmosfera progressista norte-americana e global ocupe as lacunas expostas.

Parece-se haver um certo cansaço, não apenas institucional, mas também civilizacional, com a lógica, não só estadunidense mas global, do porrete retórico e arbitrário, no qual o poder se exerce pela imposição e não pelo convencimento; pela coação e não pela construção do diálogo; pelas inverdades e não pela elaboração de ideias; pelo negacionismo e não pela ciência. E na era do Grande Porrete à moda Trump, com a subsequente sabugice de seus asseclas espraiados, ao que tudo indica, tem encontrado seus limites na própria saturação dos seus meios e na inexorável corrosão dos seus fins.

Sabemos, todavia, da força do extremismo de direita pairando sobre o cenário internacional nos tempos atuais e das dificuldades de enfrentamento. Entretanto, há que se aproveitar das brechas trazidas para fortalecer e politizar os anseios políticos e, notadamente, os feitos públicos, para, de mais a mais, resgatar os valores democráticos e da dignidade humana em prol da devida civilização.

Lucas Corrêa Fidelis é advogado e servidor público.

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