topo_M_Jose_prata_Ivanir_Alves_Corgozinho_n

SEÇÕES

Rômulo Fegalli: 61 socos. Mais uma mãe morta. E aí, homens?

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on telegram
Share on print

Tem me faltado o ar diante de duas notícias recentes que me atravessaram como socos. Uma jovem foi brutalmente espancada pelo então namorado com 61 socos. Seu rosto desfigurado virou símbolo do que a gente não quer ver, mas precisa encarar. Antes, aqui perto de nós, em Belo Horizonte, uma mãe foi morta esganada. O assassino? Seu próprio filho.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, só em 2024 já ocorreram 1.492 feminicídios no Brasil. Quatro mulheres assassinadas por dia. Uma a cada seis horas. Simplesmente por serem mulheres. Mais da metade desses crimes (57%) acontecem dentro da própria casa. E em quase 67% das vezes, o autor é o companheiro ou ex-companheiro. Mas antes de chegar ao extremo, existe um mar de violências por vezes silenciosas. Xingamentos, controle, posse, ameaças, humilhações, chantagens, medos. Tudo isso tem nome: machismo.

Mas basta tocar nessa palavra e muitos homens já cruzam os braços, entram numa negação patética, e reforçam o ciclo. Me espanta ver como tantos de nós não só ignoram o problema, como agora tentam inverter o jogo. Estamos assistindo ao crescimento de um fenômeno perigoso e ainda tratado com pouca seriedade: a chamada machosfera. Grupos como os Redpill, os “masculinistas cristãos” e os autoproclamados mentores de homens, que hoje ganham visualizações, seguidores e espaço nos corações inseguros de garotos e adultos perdidos num mundo onde não são mais os donos da palavra final.

Eles vendem medo como se fosse autoridade. Travestem opressão de ordem natural. Se alimentam do ressentimento e oferecem uma fórmula rasa para homens que ainda acham que controlar é amar. A ilusão da força que humilha. Da liderança que grita. Da masculinidade que oprime. Agora, com trilha sonora de filme épico e uivos.

E esse tipo de discurso encontra terreno fértil num país onde parte da classe política flerta abertamente com esses movimentos. Deputados, senadores, vereadores que se dizem defensores da família usam seus mandatos não para proteger, mas para desmontar políticas de gênero, barrar programas de proteção às mulheres, impedir a discussão sobre masculinidades nas escolas e tratar o feminismo como ameaça. Os mesmos que gritam por valores cristãos enquanto se calam diante de uma mulher morta a cada seis horas.

Estamos falando de um projeto de sociedade. Um projeto que tenta manter desigualdades entre homens e mulheres, entre brancos e negros, entre ricos e pobres. E que se sustenta no medo. Medo da liberdade feminina, medo do diferente, medo de perder privilégios históricos. Esse projeto, além de covarde, é criminoso. Porque ele mata. Mata com faca, com tiro, com soco, com omissão.

Aos homens que me leem, especialmente aos pais, quero dizer: essa conversa não é sobre os outros. É sobre nós. Não dá mais pra viver na negação confortável do “nem todo homem”. A pergunta mais honesta é: quem educou esses homens que matam? Quem os silenciou? Quem os admirou em silêncio? Quem se calou nas mesas de bar, nas reuniões de família, nas rodas de trabalho?

A violência não nasce do nada e tem que parar de ser tratada como caso isolado. Ela é construída a partir da omissão, da conivência, da cultura, e de uma política que falha, ou pior, sabota. Se a gente quer um país mais justo, mais seguro, mais digno, precisamos de um projeto político que enfrente de verdade a violência de gênero. Que invista em educação antissexista. Que proteja mulheres. Que debata, sim, o que significa ser homem.

E ser homem não é subir montanhas, é ter coragem de quebrar o pacto da masculinidade violenta. É escolher, conscientemente, fazer parte do outro lado da história. Precisamos ser o tipo de homem que interrompe o ciclo. Que escuta mais, fala menos. Que sente. Que cuida. Que pede desculpa. Que não tem vergonha de mudar.

Não adianta dizer “eu nunca bati em mulher”. Isso é o mínimo. A pergunta certa é: quantas vezes você se calou diante de um amigo agressivo? Quantas vezes duvidou do relato de uma mulher? Quantas vezes chamou de drama? Quantas vezes riu da piada? Quantas vezes escolheu ser aceito entre os seus em vez de ser justo com as outras? Quantas vezes chamou uma mulher de louca?

A gente precisa ser o tipo de homem que interrompe o ciclo. Que escuta mais, fala menos. Que sente. Que cuida. Que pede desculpa. Que não tem vergonha de mudar.

Fico pensando… homem adora falar de controle, de comando, de liderança. Mas até quando você vai obedecer mansamente um coach que uiva? Até quando seus filhos vão ser educados por um youtuber de óculos escuros? Até quando você vai fingir que o problema é o feminismo e não o medo de perder o trono que nunca deveria ter existido?

Que essa jovem com o rosto desfigurado e essa mãe assassinada pelo próprio filho não sejam apenas mais dois nomes numa estatística. Que elas sejam o alerta – entre milhares que temos todos os dias -, que nos leve a mudar o rumo, antes que a próxima vítima ou o próximo agressor seja alguém que você ama. Ou alguém que você criou.

Rômulo Fegalli é jornalista pós-graduado em Comunicação Pública e Governamental

Outras notícias