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Leonardo Ferreira: O que significa “voltar para a base”? Reflexões sobre o PED mineiro e o futuro do PT

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I) INTRODUÇÃO
Política é sobre pessoas, e, sendo assim, a maior virtude que ela demanda é a alteridade. Em seu complexo xadrez, afinal, somos todos ao mesmo tempo jogadores e peças. No PED de 2025, concluído no último domingo, não foi diferente. O autor não pretende atacar pessoalmente qualquer dos mencionados, e vai buscar analisar de forma objetiva e generosa as posturas e ideias de cada um dos campos envolvidos. A escrita se deu pautada em boa-fé, e se requer que a leitura também se dê.

O objetivo desse texto, mais que avaliar as jogadas, táticas e movimentações dos jogadores-peças, é entender o pano de fundo em que se travaram as discussões e disputas em Minas Gerais e Belo Horizonte. Contagem teve candidatura municipal única, e se insere nesse cenário no bojo da disputa estadual.

Esse texto vem, em complementação ao já trazido pelo companheiro José Pratta, analisar brevemente as diferentes visões sobre a sociedade brasileira, concepções partidárias e estratégias políticas que disputaram o PT Mineiro nesse PED: a do campo das forças políticas que construíram as candidaturas de Dandara para o PT-MG e Guima Jardim para o PT-BH (chamado adiante de “primeiro campo”, pela votação nas chapas proporcionais); e a das que estiveram com Leninha para o PT-MG e Robson para o PT-BH (adiante, “segundo campo”).

II) DAS QUESTÕES INTERNAS

É certo que alguns dos temas centrais do PED foram de questões de organização e administração interna do PT. Essas questões não serão discutidas em profundidade nesse texto, pelo autor entender não ser a pessoa mais indicada para tal.

Apenas vale dizer, em geral e abstrato, que se destaca o papel da burocracia: é fundamental para organizações grandes se manterem vivas uma burocracia profissional e capaz, mas há um problema quando ela se apossa da organização e, por trabalhar para ela, se sente no direito de tomar vantagem do poder que tem para benefícios personalíssimos. Em suma, é importante o direcionamento que o serviço prestado à organização não dá o direito de se servir dela mais do que deveria, impondo seu interesse à frente do interesse coletivo.

Não cabe nesse assunto fulanizar o problema. Essa foi uma questão central do papado de Francisco na Igreja Católica, por exemplo, além de ser uma grande diferença entre a URSS e a China atual – essa muito bem inspirada no confucionismo –, que vale um amplo debate em todas as organizações de esquerda, em especial no PT, para que se mantenham vivas e fortes.

III) O DILEMA PETISTA

O PT foi forjado há 45 anos atrás. Nossos fundadores souberam, no processo de fundação, entender, dialogar, organizar e transformar a sociedade brasileira. Atualmente, porém, o maior dilema da esquerda brasileira é que já não estamos no ambiente social que deu origem ao lulismo e ao PT – o auge da organização popular, nas décadas de 80 e 90, com as comunidades eclesiásticas de base, o novo sindicalismo, e diversos movimentos sociais pujantes, forjados na luta contra a ditadura e os governos neoliberais Collor e FHC.

A sociedade brasileira, em geral, se encontra desorganizada, e cada vez mais fragmentada pelos algoritmos das redes sociais – sendo o pano de fundo principal desse cenário a desindustrialização, e, mais recentemente, a economia digitalizada. A igreja popular foi sendo desmontada desde João Paulo II, e o neopentecostalismo aproveitou o vácuo deixado na periferia, com práticas de acolhimento e assistência social, e discurso geralmente neoliberal e reacionário.

O sindicalismo, em especial, sofreu duros golpes com a reforma trabalhista e as mudanças da estrutura do trabalho. Atualmente, está colocado, via de regra, entre servidores públicos e funcionários de estatais, que tem o benefício da estabilidade, com honrosas exceções no setor privado.

Cabe destacar então que a origem dos problemas da esquerda, e de todas as principais organizações que foram base de fundação do PT não é subjetivo (não se trata de incompetência dos dirigentes), mas objetivo (de transformações ocorridas no tecido social).

Em meio a essa situação, e tendo sofrido intenso processo de perseguição política entre 2013 e 2022, o PT perdeu boa parte da força social que tinha, e gradualmente se afastou dos territórios das periferias e do dia a dia dos trabalhadores. Há, ainda, a questão de como lidar com o fato do partido ser governo, evitando que isso agrave tal afastamento – debate que foi trazido pela Presidenta Dilma recentemente, e no qual esse texto não se aprofundará.

Em tal cenário, exposto de forma direta por Mano Brown em 2018, cabe a pergunta do poeta mineiro: “E agora, José?”. A tese desse texto é que o primeiro e o segundo campo que disputaram o PED Mineiro trazem respostas diferentes a essa questão, e esse foi o pano de fundo programático-ideológico dessa disputa. Ao final, se defende que essas respostas se desdobram em dois blocos de tarefas, diferentes e complementares.

IV) PT SINODAL VS. PT ESSÊNCIA

O primeiro campo do PED defendeu um PT Sinodal, que vai ao encontro das maiorias da população e da classe trabalhadora em seu nível atual de consciência de classe, e busca dialeticamente avançar a partir daí. Não se trataria de reestabelecer um passado nostálgico, mas de ir ao encontro do presente, e a partir daí disputar o futuro.

O primeiro campo defendeu, assim, um PT que vai além de pregar para convertidos: que dialoga com o povo a partir de onde ele estar e, gradualmente, vai retomando a hegemonia de valores e ideias na sociedade. Nesse sentido, muitas vezes o que se percebia nas discussões era que às vezes ainda não se tinha respostas prontas, e a consciência de que teremos de construir o caminho caminhando – indo ao encontro do outro desarmados, sem a prepotência de querer impor sua verdade no primeiro minuto de conversa.

Já o segundo campo do PED defendeu o que chamo de PT Essência, que considera que “voltar para a base” significaria retomar o modelo de militância dos anos 80 e 90, e às principais pautas dessa época. Ancoram tal visão em grupos, dos quais fazem parte, que por essência permaneceram ligados ao PT durante a última década, mesmo com todas as crises que passamos, e foram base de resistência aos retrocessos que o país sofreu – militantes organizados em movimentos sociais e servidores públicos de categorias altamente sindicalizadas.

Não é coincidência o perfil eleitoral, ao que complemento o já trazido por José Pratta dos quadros dos dois campos, com alguns exemplos: Reginaldo Lopes tem amplo eleitorado por todo o estado, e interlocução ampla com setores sociais, eleitorado e políticos para além de bolhas petistas; Marília Campos venceu com ampla margem a eleição municipal em uma cidade que votou em Bolsonaro duas vezes, tendo forte aprovação popular inclusive na direita; Dandara é de uma cidade conservadora, tendo conseguido ser vereadora, deputada federal e tendo uma boa votação em 2024 para a prefeitura; Pedro Rousseff é um quadro jovem em ascensão que se destacou nas redes sociais.

Por outro lado, membros de destaque do segundo campo tendem a ser mais voltados para frações da sociedade mais simpáticas, desde já, ao petismo: Rogério Correia e Beatriz Cerqueira tem votações expressivas baseadas em servidores públicos e militantes organizados de movimentos sociais; Leninha tem grande votação focalizada em uma região lulista do estado.

Na disputa do PT-BH, essas diferenças se desdobram com clareza no perfil dos dois candidatos: Guima é um quadro com força territorial na periferia, e conexões com setores mais desorganizados da cidade; já Robson é quadro forjado na luta sindical dos Correios, e ligado a militantes de diferentes organizações de luta. O primeiro tem obsessão por expandir a força do PT em regiões mais pobres da cidade, querendo aumentar a capilaridade do partido e conectá-lo com os meios de expressão culturais, esportivos e de luta locais, e o segundo é quadro mobilizador e organizativo, querendo aumentar a frequência de agendas de protestos e manifestações de rua.

Essa análise não se trata de desprezar o papel de servidores públicos – pessoas que se dedicam por profissão a efetivar o Estado de Bem-Estar Social, vivem na pele o sucateamento de governos de direita nos serviços públicos e tem, por regra, um “habitus” (nos termos de Bourdieu) mais desenvolvido que a média da população – e militantes organizados – aqueles que dedicam suas vidas a transformar o Brasil em um país mais justo. Ambos são indispensáveis, assim, por ter um nível maior de consciência de classe, e sendo uma massa crítica já encarnada.

Logo, para o presente e o futuro do PT, é indispensável poder contar com as frações de classe que o segundo campo representou, contar com suas experiências, suas inteligências e suas militâncias. Todavia, não é possível nos restringirmos.

Seja no momento de pensar a organização, a mobilização ou as propostas, o PT precisa estar conectado com quem vive uma vida comum, não politizada e muitas vezes precária. Falo de gente que pega ônibus lotado, se desdobra para pagar as contas em dia e manter a família minimamente estruturada – e se informa politicamente pela comunicação de massas, TV ou redes sociais. Para conquistar esses corações e mentes, parece que manifestações de rua e greves nem sempre serão tão eficazes, sendo necessário o debate de como ir ao encontro de tais pessoas levando em consideração suas possibilidades e dificuldades.

Os atos de rua, por exemplo, são indispensáveis como meio de demonstração de força, mas atualmente não parecem mais ser efetivos para acumular força e adesão política, coisa que a esquerda e o PT precisam fazer. A direita, mais que nos seus atos, tem feito uso eficiente das redes e dos cultos para acumular força social. A esquerda precisa pensar em quais alternativas seguir, olhando bons exemplos no Brasil e no mundo – o autor acredita que seria importante territorializar mobilizações de pautas populares para regiões da cidade para além do Centro.

Embora não se discorde da necessidade de mobilização dos organizados, e de pautas corporativas justas como o sucateamento do IPSEMG, não dá mais para fazer como sempre foi se as circunstâncias mudaram. Não podemos nos restringir às minorias (quantitativamente) organizadas politicamente ou sindicalmente se as maiorias da classe trabalhadora estão desorganizadas – em regimes de trabalho diferentes da CLT ou dos estatutários, logo desamparados pela estrutura de direitos trabalhistas e sem estabilidade para poder fazer greve.

Qual é a proposta do PT, por exemplo, para os trabalhadores cadastrados no MEI que estão no trailer vendendo X-tudo nas madrugadas? E para os tantos confeiteiros que têm vivido de fazer bolos de aniversário cada vez mais elaborados? E para as manicures de bairro? Essa é uma questão que precisa ser enfrentada de frente. Afinal, para além da vontade de ser dono do próprio negócio ser hoje majoritária, oferecer a essas pessoas alternativas razoáveis de outras formas de trabalho vai demandar algum tempo (e reindustrialização).

Vale destacar, como exemplo positivo na mobilização, o fato do movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que pautou nacionalmente o fim da Escala 6×1, ter nascido em um vídeo viral no TikTok. Já um bom exemplo de proposta é a do companheiro Edinho, de cooperativizar via CUT os entregadores e motoristas de aplicativo – não há, afinal, dependência tecnológica dada que justifique a submissão às grandes estrangeiras.

V) DO DIÁLOGO INTERGERACIONAL

Há um imenso potencial no diálogo intergeracional que o primeiro campo empreendeu durante o processo do PED – a partir do gesto de grandeza do presidente Cristiano Silveira de decidir passar o bastão adiante, percebendo quais as necessidades da conjuntura. De fundadores do PT como Virgílio Guimarães a militantes jovens recém filiados, foi sendo feito um processo de reflexão sobre os rumos que nosso partido tomou, com acertos, erros, triunfos e derrotas – e sobre os desafios do presente e do futuro.

Me chamou muito a atenção, por exemplo, o fato de Dandara estar ciente de que a estética “trad-wife” tem viralizado entre as mais jovens. Ela demonstrou estar a par de que houve uma cisão na juventude, cultural e ideológica, a partir da pandemia: por regra, quem entrou na pandemia já no ensino médio ou superior, tende a ser mais progressista, enquanto quem só entrou no ensino médio de 2021 para frente, costuma ser mais conservador.

Não creio que a maioria dos dirigentes petistas estejam a par dessa sequela adicional da pandemia – a quebra na transmissão do que se entendia como cultura jovem entre veteranos e calouros isolados socialmente –, ou, mais chocante, do alto número de “produtores de conteúdos” jovens em plataformas como o OnlyFans – consequência direta da selvageria neoliberal e dos impactos das redes sociais na subjetividade jovem.

O mundo tem mudado rapidamente, mais do que em qualquer outro momento histórico, e a tendência é que continue assim. Para disputar e vencer o futuro, o PT precisa ser capaz de dinâmica e ciberneticamente se atualizar ao longo do tempo, constantemente. A plasticidade necessária à organização para sobreviver em um cenário volátil só será obtida na síntese de um processo de diálogo intergeracional, em que experiências do passado são defrontadas com as questões, novidades e possibilidades do presente.

VI) CRÍTICA E SÍNTESE

No atual momento, em que temos saído das cordas e avançado para a ofensiva com o projeto de isenção do Imposto de Renda e a reação nacionalista ao tarifaço de Donald Trump, se reafirma o fato que, no presente tempo, fazer política não é só disputar um bem-estar difuso e demonstrar entregas. Há que se disputar a insatisfação social, ainda que se seja governo, contra a ordem neoliberal, sob risco de sermos testa de ferro de um sistema que nem sequer nos agrada.

Todavia, o PT não é um partido que pode se restringir a produzir crítica, mas também de levar a sociedade a produzir sínteses e pactos políticos. Afinal, somos um partido que se propõe não apenas a assumir cadeiras no parlamento, mas a governar o Brasil, estados e municípios – e devemos continuar a sê-lo.

O que é diferente, por óbvio, de ser um mero partido da ordem posta. E aqui, é fundamental deixar claro: essa não é a posição do primeiro campo, apesar de acusações nesse sentido durante o PED. Vale lembrar, a título de exemplo, que Reginaldo Lopes é autor de uma proposta de 2019 em que pauta a redução da jornada de trabalho, além de ter sido Relator da CPI do Genocídio da Juventude Negra, em que produziu o primeiro documento oficial do parlamento brasileiro que reconhece o Brasil como um país racista.

Outro exemplo nesse sentido é que Durval Ângelo, enquanto atuava na política partidária, tinha intensa atuação na área de Direitos Humanos, em especial nos direitos da população carcerária, e pagou o pato eleitoralmente por isso em 2012 – em sua candidatura a prefeito de Contagem.

De todos os órgãos partidários, deve ser a Fundação Perseu Abramo, renomada nacional e internacionalmente, que precisa ter mais atividades e dinâmicas para mobilizar a intelectualidade progressista, e buscar as sínteses necessárias – de formulações de teoria e práxis para o partido a propostas que em conjunto constituem um coeso projeto de país.

Nesse sentido, cabe ressaltar como o cenário torna cristalina a necessidade de permanecemos no Governo Federal, e termos a Presidência da República – não compensa perder 2026, como alguns na esquerda pensam, para largar todo o ônus da contradição de um sistema político constrangedor nas mãos da direita, e ficar na doce missão de ser a pedra (oposição) e não mais a vidraça (governo).

Os prejuízos ao povo brasileiro, à conjuntura internacional e à infraestrutura econômica (consequentemente, à superestruturas diversas) seriam graves demais caso percamos, e não há indicativos que facilitaria a reconstrução de qualquer corrente de viés revolucionário. Não serei leviano de apontar tal linha de pensamento ao segundo campo do PED Mineiro – essa ressalva é um alerta acerca da importância da eleição vindoura, e da necessidade de fazermos o necessário para vencer, aos que tiverem dúvidas disso.

VII) CONCLUSÃO

Ainda que a dinâmica do PT permita a permanência de disputas e contradições internas ao longo do tempo, o fim do PED exige dos quadros dirigentes e militantes o esforço de fomentar a unidade entre nós. Os dois campos aqui trazidos representam diferentes agrupamentos de tarefas que em conjunto representam o caminho de reestruturação e fortalecimento que o nosso partido precisa para transformar o país.

É necessário engajar os nossos, mobilizar em tarefas militantes, para fazer nossa mensagem de justiça social, desenvolvimento econômico e soberania nacional ecoar. Precisamos resistir diante de retrocessos que ainda estão em pauta.

Também precisamos avançar diante de parcelas da sociedade em que nossa mensagem não tem tido adesão. É necessário um processo de acolhimento, escuta e compreensão de muitos brasileiros que estão se integrando socialmente, culturalmente e economicamente em moldes distintos aos mais comuns 45 anos atrás. Há uma necessidade de reformulação de teoria e práxis, igualmente, para que dinamicamente estejamos acompanhando e nos adaptando às aceleradas transformações sociais.

O PT é um partido que nasceu com a missão de transformar a realidade social brasileira. Ainda que imperfeito, é a mais democrática instituição partidária do país. Carrega o legado de incontáveis brasileiros que, ao longo da história, com teimosia, ginga e vivacidade, lutaram e venceram batalhas diante do projeto social dominante, perverso como sabemos.

É, assim, um dever de cada companheiro e companheira colocar tudo que nossa causa representa acima de tudo – e o primeiro passo é a alteridade, a empatia, a solidariedade, o companheirismo com quem, no fim, está do seu lado no que mais importa.

Leonardo Tomaz Ferreira é graduando em Direito pela UFMG e militante do PT

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