Acuados pela iminência de um julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) que pode levar Jair Bolsonaro à prisão por até 46 anos, o clã Bolsonaro passou a ver em Donald Trump uma tábua de salvação. Eduardo, o filho número 03, assumiu o protagonismo da articulação, mudando-se para os Estados Unidos em março deste ano. Lá, mantém contato com aliados influentes de Trump — como Steve Bannon, que já o chamou de “futuro presidente do Brasil” — e faz lobby por sanções contra autoridades brasileiras, especialmente o juiz Alexandre de Moraes.
A estratégia culminou em 9 de julho, quando Trump anunciou tarifas extraordinárias de 50% sobre todas as importações brasileiras. Em posts no Truth Social e carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Trump justificou a decisão como resposta à “caça às bruxas” contra Bolsonaro, acusando o Brasil de perseguição política e práticas comerciais desleais.
Os Bolsonaro celebraram a notícia. Eduardo agradeceu publicamente a Trump e ao Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e declarou que trabalharia contra a comitiva que foi a Washington negociar com a Câmara Americana de Comércio. Flávio Bolsonaro, filho número 01, chegou a comparar o Brasil ao Japão na Segunda Guerra Mundial, sugerindo que o país deveria ceder para evitar “duas bombas atômicas”.
Conta-se que Pirro, rei do Epiro e da Macedônia, enfrentou e derrotou os romanos em duas grandes batalhas. A vitória, entretanto, custou caro. Perdeu grande parte de seu exército, com elevado número de baixas entre comandantes e soldados. Após a segunda batalha, diante do cenário desolador, Pirro teria dito: “Outra vitória como esta e estamos liquidados”. O episódio originou a expressão “Vitória de Pirro”, usada até hoje para designar uma conquista tão custosa que equivale a uma derrota. É essa a natureza da efêmera vitória dos Bolsonaro.
Em primeiro lugar, a reação da população brasileira à ameaça de Trump foi amplamente negativa, como mostram pesquisas de institutos como Atlas Intel/Bloomberg, PoderData, Genial/Quaest e DataFolha. Uma maioria expressiva, em alguns casos superior a 80%, rejeitou o tarifaço — um contingente que ultrapassa a “bolha” da esquerda e inclui parcela significativa da direita.
Em segundo lugar, a sobretaxação anunciada pelo governo Trump tende a afetar setores do empresariado que, em sua maioria, apoiaram o governo Bolsonaro ou foram beneficiados por suas políticas econômicas. Um levantamento da BBC News indica que, entre os sete estados brasileiros que mais exportaram para os EUA em 2024, apenas Minas Gerais deu vitória a Lula nas últimas eleições presidenciais. Nos demais — São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná — Bolsonaro obteve maioria dos votos.
Apesar dessa proximidade política, diversas organizações empresariais manifestaram-se contra o tarifaço. Entre elas, destacam-se a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG), a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC), a CitrusBR (produtores de suco de laranja), a Associação Brasileira do Alumínio (Abal) e a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), entre outras entidades setoriais preocupadas com os impactos econômicos da medida.
Finalmente, até jornais conservadores como O Estado de São Paulo, Folha de S. Paulo e O Globo publicaram editoriais condenando a sobretaxa e a atuação dos Bolsonaro. O editorial do Estadão de 9 de julho de 2025, sob o título “Aprendizes de Bolsonaro”, denunciou a tentativa de alguns governadores, como Romeu Zema e Ronaldo Caiado, de atribuir a Lula a culpa pelo aumento das tarifas. No dia seguinte, a Folha de S. Paulo publicou o editorial “Chantagem rasteira de Trump não passará”, conclamando governadores como Tarcísio de Freitas a escolherem entre defender os interesses brasileiros ou continuar como “joguete” da família Bolsonaro. Na mesma data, O Globo publicou o editorial “Independência da Justiça e democracia são inegociáveis” e a Folha voltou à carga com o editorial “Eduardo Bolsonaro, inimigo do Brasil”.
No campo político-partidário, além das manifestações da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), o senador Hamilton Mourão e o deputado federal Ricardo Salles — respectivamente vice-presidente e ministro do Meio Ambiente no governo Bolsonaro — também criticaram Trump. Finalmente, a delegação brasileira enviada aos EUA contou com a participação de dois outros ex-ministros bolsonaristas: a senadora Tereza Cristina e o senador Marcos Pontes.
Como se vê, a estratégia bolsonarista acabou provocando rachas no próprio campo político-partidário da direita. Lideranças que, inicialmente, haviam aderido ao coro bolsonarista se afastaram, preocupadas com os possíveis prejuízos que uma adesão automática poderia causar às suas ambições políticas para o ano que vem. São exemplos o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas; Romeu Zema, de Minas Gerais; e Ratinho Junior (PSD), do Paraná.
A reação de Eduardo Bolsonaro foi dura, acusando a todos de “traição” à causa. Sobrou até mesmo para Nikolas Ferreira, figura ascendente na extrema-direita, criticado por, supostamente, não corresponder às expectativas na defesa da agenda bolsonarista.
No campo oposto, as instituições brasileiras responderam às ameaças com altivez, ainda que com a cautela recomendável, colhendo resultados bastante positivos, como indicaram pesquisas que registraram aumento na aprovação do governo Lula. No âmbito governamental, Lula regulamentou a Lei da Reciprocidade Econômica, que permite ao Brasil reagir ao aumento de tarifas ou a sanções comerciais impostas por outros países. Além disso, sinalizou disposição para retaliar com medidas como a quebra de patentes e a taxação de big techs.
No Congresso, uma verdadeira “chuva” de discursos, comunicados e moções marcou a resistência. O presidente da Câmara, Hugo Motta, e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, declararam a aliança das duas Casas Legislativas na defesa da soberania nacional e a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado (CRE) aprovou a criação da já mencionada comissão parlamentar que foi a Washington. Por fim, o Supremo Tribunal Federal (STF), longe de ceder, endureceu sua postura, mantendo a tornozeleira eletrônica de Bolsonaro e congelando bens de Eduardo Bolsonaro.
A pá de cal veio em 30 de julho último, quando Trump assinou o decreto que formalizava as tarifas de 50%, mas excluindo 669 produtos dos quais os EUA são muito dependentes e que respondem por 43,4% das exportações do Brasil aos EUA, segundo a Câmara Americana de Comércio (Amcham Brasil). O recuo sacramentou a vitória de Pirro do clã.
A derrota dos Bolsonaro neste episódio resultou de dois erros estratégicos cruciais, que contribuem para a compreensão da essência do bolsonarismo.
Em primeiro lugar, ao subordinar os interesses nacionais à agenda de sobrevivência do clã, a família Bolsonaro revelou completa falta de empatia com os dramas de seus correligionários, exigindo um alinhamento incondicional. Essa postura resultou numa tensão com aliados-chave: setores do agronegócio tradicionalmente simpáticos ao bolsonarismo, governadores conservadores preocupados com os efeitos econômicos das sanções e até veículos de imprensa historicamente críticos ao governo Lula se afastaram do núcleo duro bolsonarista e passaram a criticá-lo.
Em segundo lugar, ao recorrer a Donald Trump e endossar uma retaliação contra o Brasil por uma potência estrangeira, os Bolsonaro cruzaram uma linha simbólica fundamental: abriram mão de qualquer pretensão de defesa da soberania nacional. Essa opção não apenas corroeu a imagem de Bolsonaro como líder de uma direita patriótica e nacionalista (imagem que lhes é tão cara), mas também os colocou sob a acusação — amplamente difundida — de traição aos interesses do país. “O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) transformou-se em inimigo do Brasil. Perdido no labirinto de seus delírios, ele faz de tudo para defender a própria família e não se importa de mandar às favas os interesses nacionais”, escreveu o editorialista do jornal Folha de São Paulo em 30/07.
Esse duplo erro tem a capacidade de comprometer gravemente as chances eleitorais da extrema-direita bolsonarista em 2026. O desgaste junto à opinião pública, o distanciamento de aliados estratégicos e a intensificação do cerco judicial por parte do STF indicam que o clã se encontra num processo acelerado de isolamento que pode ser o primeiro passo para a derrocada do bolsonarismo.
Mais que qualquer outro, este capítulo de nossa história serviu para desnudar os fundamentos do bolsonarismo como uma visão de mundo. A estratégia adotada — por mais desastrosa que tenha sido — não representou uma mera falha tática, ditada pelo desespero, mas a expressão coerente da ética privada de poder familiar e de autopreservação que orienta o clã. Aqui temos o personalismo autoritário, o culto à lealdade incondicional ao chefe, o confronto sistemático como método e a indiferença diante das consequências sociais e econômicas de suas ações e, enfim, a recusa de qualquer projeto de nação que transcenda os interesses familiares.
Esta concepção que, em essência, nega o outro e a coletividade, expressa uma adesão acrítica (e até ingênua) a uma concepção filosófica autoritária percebida como natural, lógica e normal. Nesse sentido, perpetua atos de violência simbólica e política não necessariamente por alguma “maldade”, mas por uma crença genuína que bloqueia a consciência do mal, a autocrítica e, inclusive, a compreensão das críticas que recebem. Como sugeriu Hannah Arendt, ao refletir sobre a banalidade do mal, é justamente a incapacidade de imaginar-se no lugar do outro que abre caminho para a normalização do inaceitável. Não é sem razão que o editorial da Folha fala que Eduardo está “perdido no labirinto de seus delírios”.
No resumo, o bolsonarismo errou porque não sabe, não quer e não pode agir de outro modo. Ao fim, revelou-se não apenas incapaz de defender o país, mas também de preservar sua própria base. É essa contradição interna — entre o que diz ser e o que efetivamente é — que pode empurrá-lo para a condição de uma força política cada vez mais residual, alimentada por ressentimentos e nostalgia, e mais associada à radicalização do que a um projeto viável de poder de direita.
Ivanir Corgosinho é sociólogo