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Keith Richard: Contagem é fortemente sensível ao dumping nesse tarifaço

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Nessa Quarta, Lula apresentou um pacote de medidas para conter os impactos das tarifas dos EUA nas nossas exportações que somam em torno de 30 bilhões de reais. Este teve uma boa repercussão no mercado de perecíveis, vista a permissão de compras públicas pelos municípios, estados e união. Para a Siderurgia, setor representativo em Contagem, o pacote foi tímido por não apresentar políticas antidumping e tampouco compras de seus produtos. Visto com apreensão pelo mercado financeiro, resultou em forte queda da Bovespa por não conter contrapartidas fiscais, mas acredito que este último possui mais razões políticas do que econômicas propriamente ditas.

Seja no mundo político, em reuniões com empresários, ou nos canais de notícias.. o termo Dumping tem sido repetido constantemente em virtude do Tarifaço dos EUA. Mas afinal, o que é dumping e por que ele é tão relevante para a indústria brasileira e para a prefeitura de Contagem?

Trata-se de uma prática comercial em que empresas estrangeiras vendem seus produtos no Brasil a preços artificialmente baixos, abaixo do custo de produção, com o objetivo de eliminar concorrentes locais e dominar o mercado. Ao obter o monopólio do produto na região, essas empresas elevam os preços e controlam o mercado. O dumping é uma prática considerada predatória e é combatida por órgãos internacionais como a Organização Mundial do Comércio (OMC).

Nosso país é especialmente sensível aos efeitos dessa prática, pela sua desindustrialização precoce e falta de competitividade sistêmica da economia, especialmente diante da concorrência chinesa. Muitas indústrias nacionais, principalmente nos setores têxtil, metalúrgico e eletrônico, não conseguem competir com preços tão baixos e acabam fechando ou reduzindo sua produção. No entanto, nem todos perdem com o dumping: algumas empresas brasileiras se beneficiam ao comprar insumos mais baratos da China, reduzindo seus custos e tornando seus produtos finais mais competitivos. Esse é um dilema complexo, pois enquanto alguns setores sofrem com a concorrência desleal, outros dependem dela para se manterem viáveis. Em Contagem não é diferente, explico abaixo.

Dentro dos que se beneficiam da prática de Dumping, notadamente no setor de Eletroeletrônicos e Tecnologia, temos o exemplo da Energia solar: Painéis fotovoltaicos chineses, frequentemente acusados de dumping, baratearam a instalação de usinas solares no Brasil, impulsionando o setor de energia renovável (EXAME, 2025; UOL, 2024).

Também, produtos como celulares, computadores e eletrodomésticos obtém vantagens ao comprar das industrias estrangeiras pois montadoras e fabricantes brasileiros compram componentes chineses (como chips, telas e peças plásticas) a preços muito abaixo do mercado global.

Em Contagem, pensando na nossa diversificação econômica, setores de Máquinas e Equipamentos Industriais da Indústria automotiva compram muitas peças e componentes chineses (como motores elétricos, baterias e sistemas eletrônicos) permitindo que montadoras e autopeças nacionais reduzam custos. Além disso, a Construção Civil se beneficia do aço chinês e coreano a preços abaixo do mercado pode reduzir custos para construtoras e indústrias que usam o material como insumo, como fabricantes de pré-moldados.

Por outro lado, algumas empresas da nossa cidade amargam falências pela competitividade externa, em especial da china: A GERDAU, em entrevista ao jornal O Tempo nesse mês, anunciou demissões e cortes, alegando que “aço chinês impacta mais que tarifaço”, acusando os chineses de concorrência desleal e inércia das autoridades brasileiras frente a nossa siderurgia. A empresa foi isenta de tarifaço do Trump. Também, a RHI MAGNESITA levou ao Alckmin e a Marilia suas preocupações com as práticas de Dumping pelas empresas chinesas.

Historicamente, tanto os EUA quanto a China utilizaram o dumping e o protecionismo para fortalecer suas indústrias. No século XIX, os Estados Unidos impuseram tarifas altíssimas para proteger sua indústria nascente da concorrência britânica, só abrindo seu mercado quando já eram a maior potência industrial do mundo. Já a China, desde os anos 1990, tem sido acusada de vender produtos a preços irrisórios para dominar mercados globais, estratégia que a transformou na “fábrica do mundo”. Agora, os EUA revidam com o chamado “tarifaço”, aumentando impostos sobre produtos chineses em setores estratégicos como semicondutores e aço.

Mas as tarifas não são a única forma de combater o dumping. Fortalecer agências reguladoras, como o CADE e a SECEX, para investigar práticas abusivas é essencial. Outra medida eficaz é o incentivo à indústria nacional por meio de subsídios e políticas de inovação, ajudando empresas locais a competir em condições mais justas. Além disso, barreiras não-tarifárias, como exigências técnicas e sanitárias, podem dificultar a entrada de produtos estrangeiros que não atendam aos padrões nacionais.

O debate sobre o futuro da indústria brasileira ganhou força com as medidas protecionistas dos EUA. Nossa balança comercial, já pressionada pela desindustrialização e dependência de commodities, precisa de uma estratégia clara. Enquanto alguns defendem tarifas mais altas para proteger setores estratégicos, outros alertam que isso pode encarecer insumos e prejudicar outras cadeias produtivas. O caminho ideal talvez seja um equilíbrio: combater o dumping onde ele ameaça empregos e soberania, sem fechar as portas ao comércio global. Afinal, a China não se tornou potência apenas vendendo barato, mas também investindo em tecnologia e infraestrutura – algo que o Brasil precisa fazer se quiser uma indústria forte.

No fim, o dumping não é apenas uma questão econômica, mas também política. O Brasil precisa definir sua estratégia com clareza, antes que outros países decidam por nós. Enquanto isso, o desafio permanece: como proteger a indústria nacional sem sacrificar a competitividade? Como equilibrar os interesses de quem perde e de quem ganha com o comércio global? São perguntas que exigem respostas urgentes, pois o futuro da nossa economia depende delas.

Em Contagem, Marilia está atenta ao debate: reuniu-se com grandes empresários exportadores nessa terça (12/08), levou nossas preocupações ao Vice-Presidente e Ministro Alckmin e solicita diversos estudos da Secretaria de Fazenda e da Secretaria de Desenvolvimento Econômico sobre o assunto. Dumping tem sido tratado em todas essas reuniões e debates.

Keith Richard Brauer é formado na USP e Mestrando em Economia na UFMG. Assessor de Gabinete na Secretaria Municipal de Fazenda de Contagem.

REFERÊNCIAS

UE anuncia investigação contra fabricantes chineses de painéis solares. 2024. Acesso em: 13 de Agosto de 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2024/04/03/ue-anuncia-investigacao-contra-fabricantes-chineses-de-paineis-solares.htm

Brasil emite 4 milhões de toneladas de CO₂ com dependência da China na importação de painéis solares. 2024. Acesso em: 13 de Agosto de 2025. Disponível em: https://exame.com/esg/brasil-emite-4-milhoes-de-toneladas-de-co%E2%82%82-em-dependencia-da-china-na-importacao-de-paineis-solares/

Gerdau anuncia demissões e corte em investimentos: ‘aço chinês impacta mais que tarifaço’ . 2025. Acesso em: 13 de Agosto de 2025. Disponível em: https://www.otempo.com.br/economia/2025/8/1/a-gerdau-anuncia-demissoes-e-corte-em-investimentos-aco-chines-impacta-mais-que-tarifaco

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