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Hamilton Reis: Desejos

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Não vou mergulhar no tédio desta tarde morosa que convida. Nem deixar me arrastar pelo desejo insano de mergulhar neste pote de mágoas que você deixou ao meu alcance. Hoje quero alegria, Maria Gadu tocando suave, somente para meu deleite e desfrute. Quero um pouco de muito romance.

Dezembro já principia, trazendo tudo de bom, embrulhado na sensação do fim. O epílogo do ano que começa a nos deixar para trás, a sensação de que o outro vai ser melhor e mais bonito. E essa mania de esperança, brasileiro jeito de ser que traduz nossa singularidade.

Quero agora rasgar os velhos planos, dizer não aos arranjos, preparar a festa, antecipar a folia em beijos grandes de amor. Quero forjar o devaneio. Ser esteio, abrigo para seus abraços, imbuído da ousadia do beija flor. Quero ter sem dor, propagar o justo, desejar sem ter que voltar atrás. Tudo numa cornucópia de cores e ruídos, incessantes como a mais bela poesia.

Quero que as luzes deste Natal iluminem o mundo e não apenas as belas ruas da cidade, essa que clama sempre por mais atenção e carinho. Não quero a ilusão da velocidade a desfilar sua pressa.

Quero que a alma seja despida com calma. Quero a graça faceira e serelepe das maritacas nas manhãs da goiabeira.

Quero mergulhar em um janeiro feito de boas companhias. Colher os frutos maduros, falar do nada, brindar ao ócio, deixar para depois o futuro. Quero o descanso merecido, o carinho da mulher amada, o cio rompendo a fadiga e a vida jorrando intensa e esplêndida.

Quero mais utopia para seguir em frente. Ter fé no improvável e crença no impossível, até que a miséria seja banida e desfaça pensamentos apodrecidos de quem se acha dono da razão. Quero menos certezas e a garantia de que são possíveis as dúvidas. Quero ser convencido do contrário e ter a sabedoria de entender o que o outro pensa, mesmo sendo completamente diferente daquilo que creio.

Quero luz no caminho dos meus filhos. Uma alegria capaz de redimir culpas e erros e semear o perdão. E que ele seja tão forte que possa banir de vez as incompreensões. Desejo ainda que venha a paz para fazer morada por essas bandas e pelos quatro cantos de um novo ano. Que ela venha espalhando sensatez e paciência e seja capaz de nos fazer seres melhores: humanos, sensíveis, misericordiosos. Merecedores da beleza que o céu estampa a cada noite.

Quero a chance de começar de novo, de tentar outras vezes. De corrigir meus defeitos, de amar do meu jeito. Quero a oportunidade de aprender como se estivesse engatinhando e tudo fosse novidade. Quero o direito de envelhecer sem medo e de rolar na neve com a mesma pureza da criança que brinca de esconde-esconde.

E se nada for possível peço apenas mais um dia para amanhecer entre os meus, antes que o tempo me leve, os dias fiquem para trás e eu vá, ainda que relutante, ao encontro de Deus.

Hamilton Reis é jornalista e advogado.

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