Vamos começar nossa reflexão por algumas manifestações comuns de ouvir das pessoas aqui na Região Metropolitana de Belo Horizonte – RMBH, como de resto em quase todo lugar do Brasil.
“O trânsito hoje tá péssimo, por isso cheguei atrasado ao trabalho”
“Não tem como o trânsito fluir; é muito semáforo e quebra-mola. Assim fica difícil!”
“Será que não tem fiscalização de trânsito? Tem que rebocar esses carros estacionados em lugar proibido.”
“Acho que os engenheiros de trânsito aqui da cidade não sabem de nada. Estrangularam a rua e agora só passa um carro de cada vez.”
“Caminhão tinha que rodar só a noite, pois durante o dia atrapalham demais o trânsito.”
“Esses motoqueiros são uns loucos, andando em alta velocidade e sem respeitar nada e nem ninguém.”
“Colocaram um ponto de ônibus na porta da minha casa. Acabou meu sossego.”
Poderíamos ficar aqui reproduzindo ainda mais falas e reclamações diversas, mas não é esse o objetivo.
O ponto central que queremos levantar e propor aqui é uma reflexão que vai muito além da questão do trânsito em si; pois grande parte dos problemas são reflexos ou consequências do crescimento das cidades e sobretudo da forma com que esse crescimento se deu ao longo dos anos, com pouco ou sem nenhum planejamento.
Obviamente que é importante as cidades crescerem e se desenvolverem para que a população tenha melhor qualidade de vida. Importante que as pessoas possam melhorar seu poder aquisitivo e realizar alguns desejos, dentre os quais adquirir um veículo (geralmente carro) para se locomover com maior liberdade. Fundamental ter saúde e viver em cidades ambientalmente sustentáveis, arborizadas e menos poluídas.
Portanto é imperativo que se busque eliminar ou pelo menos reduzir os impactos de situações negativas, que nos trazem desgaste, estresse e comprometimento da qualidade de vida, como é o caso do trânsito por vezes caótico que enfrentamos nos deslocamentos aqui na RMBH.
Contudo, antes de prosseguir em nossa reflexão vamos tentar entender a real dimensão da questão “trânsito” aqui na RMBH. Para tanto, apresentamos a seguir um quadro resumo com a população e frota das 10 maiores cidades da RMBH, mostrando um comparativo entre os anos de 2022 e 2025.
Cabe destacar que os dados de população de 2022 são dados reais, pois foram retirados do Censo Demográfico, enquanto os dados de 2025 são estimativas do IBGE para esse ano, que poderão ou não se confirmar quando da realização do próximo censo. Já no que diz respeito aos dados da frota veicular registrada em cada cidade, vale destacar que os dados disponíveis de 2025 são de outubro e muito provavelmente em dezembro/2025 teremos uma frota ainda um pouco maior. Contudo, para os nossos objetivos de tentar avaliar o trânsito e sua correlação com a população, as informações apresentadas no quadro resumo são perfeitamente válidas e consistentes.
Analisando os dados apresentados observa-se que a população total nestas 10 cidades da RMBH cresceu cerca de 4,9% entre 2022 e 2025; já a frota veicular registrada cresceu 9,3% no mesmo período. O percentual de crescimento da frota veicular é quase o dobro do crescimento da população, o que nos permite deduzir que mais pessoas estão adquirindo veículos nestas cidades.
Alguns dados chamam a atenção, como a razão entre a frota veicular e a população, que, na média geral das 10 cidades, atinge um valor de 0,83 veículos por habitante; na Capital Belo Horizonte o valor é ainda mais impactante, pois atinge 1,16 veículos por habitante (“tem mais carro do que gente em BH”, em uma afirmativa simplificada).
Embora saibamos que nem todos os quase 4 milhões de veículos destas 10 cidades circulem simultaneamente pela RMBH, o que iria configurar um caos total se viesse a acontecer, é razoável deduzir que os grandes congestionamentos e retenções no trânsito decorrem em grande parte deste expressivo crescimento da frota veicular aqui na RMBH, pois o sistema viário está com sua capacidade praticamente esgotada em diversos pontos da região. A título de exemplificar esta afirmação, vamos mencionar alguns locais que têm tido recorrentes problemas de trânsito na RMBH.
Vetor Sul: Retenções e congestionamentos na divisa de Belo Horizonte com Nova Lima, sobretudo na região dos bairros Belvedere (em BH) e Vila da Serra/Vale do Sereno (em Nova Lima), com repercussões negativas para a Av.Raja Gabaglia, Av. Nossa Senhora do Carmo/BR-356, Rodovia Januário Carneiro (MG-030), Alameda Oscar Niemeyer e Av. Luiz Paulo Franco, dentre outras. Importante dizer que estes congestionamentos afetam também as populações de Rio Acima e Raposos, além das cidades que estão situadas na diretriz da BR-356 em direção ao Rio de Janeiro, como é o caso de Ouro Preto, Mariana e Itabirito
Vetor Norte: Problemas recorrentes nos corredores da Av. Antônio Carlos, Av.Cristiano Machado e Av.Pedro I, com reflexos nas rodovias MG-010 e MG-424, comprometendo os deslocamentos em direção à Cidade Administrativa e ao Aeroporto de Confins, afetando também as conexões com as cidades de Santa Luzia, Vespasiano, Lagoa Santa, São José da Lapa, Matozinhos, Pedro Leopoldo e outras na diretriz deste vetor norte
Vetor Leste: Dificuldades nas conexões em direção aos municípios de Sabará e Caeté, sobretudo pelos problemas no Anel Rodoviário/Rodovia BR-262 e também nos corredores das Avenidas José Cândido da Silveira e a conexão com a MG-05. Importante dizer que estes congestionamentos afetam também as populações situadas na diretriz da BR-381/BR-262 em direção a Vitória/ES, como as cidades de Itabira, João Monlevade, Governador Valadares e outras do vale do Rio Doce.
Vetor Oeste: Provavelmente o que vem apresentando maiores problemas de retenções e congestionamentos, bem como registrando grande quantidade de sinistros de trânsito. Cabe lembrar que o acesso às cidades de Contagem, Betim, Ibirité, Sarzedo, Igarapé, Brumadinho, Juatuba, Mateus Leme e outras, ocorrem com a utilização dos corredores da Av. Amazonas, Av.Cardeal Eugênio Pacelli e Via Expressa, bem como da conexão destes com a rodovia BR-381 (rodovia Fernão Dias).
Como se percebe, apenas nos poucos exemplos mencionados acima, é nítida a existência de grandes pontos de retenção e congestionamentos na RMBH, cuja solução depende não apenas das Prefeituras das cidades afetadas, mas sim de um amplo e efetivo engajamento do Governo Estadual e Governo Federal no intuito de, pelo menos, amenizar a situação, com a implantação de obras e intervenções estruturantes.
Pergunto a você que está lendo esse artigo: falamos alguma novidade até o momento ou você já sabia de tudo isso e vivencia tais situações no seu dia a dia?
Creio que, muito provavelmente, não trouxemos nenhuma grande novidade até esse momento; nem foi essa a nossa intenção. Estamos sim organizando e trazendo informações para a reflexão de todos.
E qual a solução para resolver a questão do trânsito na RMBH?
A propósito, há solução para este problema ou teremos que conviver cada vez mais com os congestionamentos, retenções e com os sinistros de trânsito?
Até onde vai a responsabilidade das Prefeituras, do Governo Estadual e do Governo Federal nessa questão?
E qual é a parcela de responsabilidade que cada cidadão e cidadã aqui da RMBH tem nisso tudo? É possível darmos nossa contribuição para esse cenário melhorar?
Interessante observar que tudo que foi dito até agora está considerando apenas e tão somente o modal rodoviário, pois estamos falando de “congestionamentos, retenções e sinistros de trânsito” que envolvem os veículos do modo rodoviário, basicamente os veículos sobre pneus (automóveis, motocicletas, ônibus, caminhões, carretas e bicicletas).
Pausa para reflexão… voltando ao título do artigo: “O trânsito nosso de cada dia aqui na RMBH”, que de certa forma pode estar nos levando a um raciocínio restrito, de que tanto os problemas como as eventuais soluções estão condicionados apenas sob a ótica dos modais rodoviários, o que não é verdade.
O “trânsito nosso de cada dia” vem sendo cada vez mais uma pauta recorrente nos debates técnicos, políticos e administrativos. Nunca se falou tanto de trânsito nesse país; nunca se falou tanto em mobilidade urbana. O que outrora era uma pauta marginal às grandes discussões da vida cotidiana nas cidades, tornou-se tão ou mais relevante que as pautas de saúde, educação e segurança. Isso não ocorreu por acaso ou por iniciativa desta ou daquela autoridade ou figura pública que levantou o tema. Ocorreu por que a mobilidade urbana e o trânsito caótico estão comprometendo em demasia a qualidade de vida das pessoas e trazendo dificuldades para o setor produtivo, sobretudo em regiões extremamente adensadas, como é o caso da RMBH.
Embora com um relativo atraso de pelo menos três décadas, o tema da mobilidade urbana vem ganhando espaço no planejamento urbano e nas preocupações dos governantes, das instituições públicas e privadas, da mídia e da população de maneira geral. Nesse sentido destaco três momentos importantes ocorridos aqui na RMBH neste mês de novembro/2025:
• a 72ª Reunião do Fórum Mineiro de Secretários e Dirigentes de Mobilidade Urbana, promovido pela Associação Nacional de Transporte Público-ANTP em parceria com a Prefeitura de Contagem, nos dias 06 e 07 de novembro, evento que reuniu representantes de 25 cidades mineiras e contou com a participação de mais de 200 pessoas entre gestores públicos, técnicos e autoridades do setor. Dentre as conclusões e recomendações deste Fórum destacamos, no caso da RMBH, a necessidade de se efetivar uma política para fomentar e implementar o transporte de passageiros sobre trilhos, aproveitando a malha ferroviária existente e desativada em vários municípios da região, além da necessidade imperativa de que as cidades e o Estado busquem com urgência mecanismos para que o transporte público coletivo de passageiros estejam integrados física e tarifariamente, com um órgão institucionalizado para fazer esta integração entre as partes;
• a IX Conferência Metropolitana, promovida pelo Governo do Estado de Minas Gerais, no dia 26 de novembro, em que um dos painéis foi sobre o tema “Mobilidade e Integração Metropolitana: Caminhos para a sustentabilidade urbana”. Neste painel houve diversas manifestações de autoridades e técnicos reforçando a necessidade de maior diálogo e efetiva integração entre os órgãos gestores da mobilidade para vencer os desafios e o caos no sistema de trânsito e transporte.
• o Fórum Band de Mobilidade Urbana, promovido pela TV Band Minas, ocorrido também no dia 26 de novembro, que contou com a participação do Prefeito de Belo Horizonte, Álvaro Damião; da Prefeita de Contagem, Marília Campos; do Prefeito de Betim, Heron Guimarães; do Prefeito de Nova Lima, João Marcelo, também presidente da GranBel; e do Secretário de Estado de Infraestrutura, Mobilidade e Parcerias, Pedro Bruno. Temas relevantes foram debatidos, como a questão da governança metropolitana, a expansão da linha 1 e construção da linha 2 do metrô; o transporte de passageiros sobre trilhos, utilizando a malha ferroviária não somente com trens de carga, mas também com trens de passageiros; o rodoanel; e o transporte em geral. Esse debate mostrou de forma muita clara e contundente que os municípios da RMBH têm que se unir e buscar soluções conjuntas para solução de problemas comuns. Mais ainda, mostrou que não se pode pensar no transporte coletivo de passageiros com base apenas nos ônibus, mas buscando diversificar a matriz de transporte, incluindo outros modais como é o caso do trem de passageiros. Importante destacar que a questão da governança metropolitana foi mencionada como sendo uma questão urgente e imperativa, sobretudo na busca de integração dos sistemas e na implementação da integração tarifária.
Enfatizamos a importância destes três eventos para ilustrar o quanto as questões de trânsito e mobilidade urbana vem ganhando relevância. Isso é muito bom e representa um sopro de esperança em dias melhores, pois as soluções precisam e devem ser amplamente discutidas na busca de consensos e de medidas que efetivamente melhorem a qualidade, a segurança e o custo dos deslocamentos na RMBH.
Para que isso ocorra é necessário que as Prefeituras e os órgãos estaduais se unam na busca de soluções, desprovidos de vaidades ou rusgas de caráter político partidário, pois a mobilidade urbana diz respeito a todas as pessoas. Todos nós precisamos de um trânsito com maior segurança e maior fluidez, e um dos caminhos possíveis é o planejamento conjunto de soluções viárias e de mobilidade que considerem de fato que o cidadão e a cidadã são “metropolitanos”.
Uma vez mais, como já nos manifestamos em outros artigos aqui neste espaço, é oportuno lembrar que há projetos importantes em andamento na RMBH, como o Sistema Integrado de Mobilidade – SIM, de Contagem; o BRT Amazonas, em Belo Horizonte; a expansão da linha 1 e a construção da linha 2 do metrô; e devemos entender isso como ações positivas e que devem ser comemoradas. Contudo, ainda que plenamente implantados, estes projetos não conseguirão por si só resolver as questões de mobilidade se não houver uma governança metropolitana, envolvendo as dez maiores cidades da RMBH, o que significa um universo de quase 4,8 milhões de habitantes, tendo nessas cidades uma frota veicular de quase 4 milhões de veículos.
Mas para além destes projetos mencionados – SIM, BRT Amazonas e Metrô – há que se atacar outras frentes de trabalho para buscar um planejamento urbano da ocupação e uso do solo mais coerente e condizente com os interesses metropolitanos, como por exemplo buscar estabelecer parâmetros e consensos técnicos na análise e licenciamento de empreendimentos de impacto ou na implementação de medidas de trânsito em corredores de tráfego que ultrapassam os limites municipais e têm continuidade e características semelhantes, dentre outras ações.
Não se trata aqui de defender legislação e regras ditadas de forma unilateral pelos organismos metropolitanos ou estaduais; não se trata de ferir a autonomia municipal na gestão do seu território e na condução das soluções de mobilidade. Há questões que são apenas de interesse municipal e cabe à cada cidade resolver isso; contudo há diversas questões de interesse entre dois ou mais municípios e outras que interessam a todos, dentre os quais estão as questões de trânsito nas principais avenidas e corredores de tráfego da RMBH, sobretudo aqueles que recebem o tráfego do transporte coletivo de passageiros por ônibus e os corredores logísticos.
Você que nos prestigia lendo esse artigo, sabe perfeitamente das dificuldades de se deslocar na RMBH; sabe bem de que não há soluções consensadas entre os técnicos e gestores das cidades, principalmente nas cidades que fazem divisa com a Capital Belo Horizonte; sabe que para se deslocar de ônibus entre as cidades e internamente às cidades é preciso ter dois ou três cartões para usar os ônibus pois os sistema não são integrados e as tarifas totalmente diferentes e de um valor excessivo; e por aí vai…
Há muito o que se melhorar, há muito o que se fazer ainda, mas urge que se tenha uma governança metropolitana da mobilidade urbana aqui na RMBH. Não tivemos a pretensão de esgotar o assunto pois o tema é complexo e depende de muitas questões, mas é preciso ação firme, integrada, coerente e que leve em consideração o caráter metropolitano dos deslocamentos para grande parte das pessoas que vivem nas cidades que integram a RMBH.
“O trânsito nosso de cada dia pode ser melhor, mais humano e menos estressante aqui na RMBH.”
Você acredita nessa possibilidade?
Acreditando ou não, convido você a refletir sobre tudo isso que expusemos aqui e dar a sua cota de participação na busca de soluções, pois afinal “deslocar e viver é preciso”.
Marco Antônio Silveira é Engenheiro Civil e especialista em engenharia de tráfego e transportes
