Para escrever este texto, tive que revisitar um outro, que publiquei neste blog no dia 25 de setembro de 2025. Estávamos, naquele momento, iniciando as plenárias para eleger os conselheiros regionais. Foi uma publicação com caráter mais informativo, com leves notas de apelo para que a militância progressista se apropriasse mais desse instrumento original estruturante da política de participação popular da gestão da Prefeita Marília Campos, que são os Conselhos Regionais.
A cautela presente no texto se deveu a um sentimento um tanto quanto barroco da equipe diretamente responsável pela condução do processo em relação ao que, de fato, poderia ser. Estávamos afetados por três medos: o da eleição anterior, que registrou grande mobilização e envolvimento das lideranças políticas que disputariam a eleição para a Câmara Municipal no ano seguinte; as mudanças que implementamos na composição dos Conselhos (ampliação de segmentos e eleição de todos pelas microrregionais); e a digitalização completa do processo, desde a inscrição de candidaturas à divulgação dos resultados (papel zero era ideia). Quem revisitar o texto verá que sequer citei a digitalização. Convenhamos: era muita ousadia para um mesmo processo.
As eleições terminaram no dia 24 de novembro. Longe de mim querer fazer um balanço de um processo tão rico, complexo e desafiador como esse. Ainda mais em se tratando de um empreendimento cuja vitória carrega a digital de tantas pessoas; tantas pessoas se reconhecem como parte de uma caminhada que foi tão exitosa e que faz tanta diferença para a coletividade. As eleições dos Conselhos Regionais de 2025, para ser justo, serão matéria de encontros, seminários, dissertações e teses Brasil afora. Internamente, é natural que promovamos os diálogos necessários para fazer um balanço mais multilateral, bem como para que a gestão se aproprie do que foi o processo de construção, de fora para dentro, quando lançamos uma consulta pública para colher sugestões para a elaboração do edital, e de dentro para fora, com as reuniões semanais que forjaram as convicções sobre o caminho adotado, convicções essas que paulatinamente foram compartilhadas por todos os envolvidos, esclarecendo dúvidas e quebrando resistências.
Se um balanço mais detalhado precisa ser feito de forma mais coletiva, então o que cabe a este que vos escreve neste momento? Pretendo, então, falar dos medos.
Depois de concluídas as eleições, a mobilização não é algo discutível, a priori. São números. No entanto, como estamos falando de um processo político e social, os números não bastam. Fixamos como meta de mobilização em 8000 participantes. Chegamos à marca dos 8.489 eleitores. Ultrapassamos a meta e poderíamos nos dar por satisfeitos. No entanto, é importante que façamos algumas perguntas: Quem participou? Por que será que essas pessoas participam? Quais foram as condições?
Para responder a essas questões, registro que desde fevereiro de 2025 adotamos um formulário para captar o perfil de todas as pessoas que participam de algum processo participativo na Plataforma Decide Contagem. Estão disponíveis para consulta todos os dados demográficos dos 8.489 eleitores que votaram nas eleições dos Conselhos Regionais. Vejam bem: em relação ao gênero – 59,21% são mulheres e 40,08% são homens; raça – 40,86% parda, 29,21% branca e 21,64% preta; faixa etária – 30,90% entre 49 e 59 anos, 24,68% com 60 anos ou mais, 24,88% entre 30 e 44 anos, 12,91% entre 12 e 29 anos; faixa salarial – 56,66% preferiu não informar, 18,15% de 1 a 3 salários mínimos, 17,32% até 1 salário mínimo, 5,64% de 3 a 6 salários mínimos, 1,6% de 6 a 10 salários mínimos e 0,61% acima de 10 salários mínimos; escolaridade – 30,04% com ensino médio completo, 17,93% preferiu não informar, 13,69% com ensino fundamental incompleto, 12,03% com ensino superior completo, 7,89% com ensino fundamental completo e 7,77% com médio incompleto.
Esses são alguns dados, que podem ser desagregados por regional, por microrregião, etc. No entanto, eles já dizem muito. Respondendo à pergunta sobre quem participa, a maioria é mulher (quase 60%); não brancos (pardos e pretos), que somam 62,5%; pessoas em idade madura e idosos, que somam 55,58%; e de baixa renda, pois 35,47% ganha até 3 salários mínimos, sendo quase metade desse percentual com renda de até 1 salário mínimo, e com ensino médio completo. Chamo atenção para dois pontos: a quantidade de pessoas que preferiu não informar a renda (56,66%), tendo em vista ser um dado sensível, o que indica que o percentual de pessoas sem renda ou de baixa renda pode ser muito maior; e o baixo percentual de jovens, apenas 12,91%.
Retomo aqui uma ideia que parafraseei de Édouard Louis, jovem escritor francês, que novamente fica latente: as pessoas não participam por uma questão estética, ou porque isso tem a ver com a sua forma de ver e pensar o mundo, muito menos para construir uma persona progressista e engajada com causas nobres. Não; elas participam porque precisam, inclusive disputar o orçamento público, como é o caso dos Conselhos Regionais. Elas participam porque, para elas, como diz o escritor, “é uma questão de vida ou morte”.
O segundo medo foi o da alteração da composição e da eleição de todos os segmentos nas microrregiões. Isso foi de uma ousadia sem tamanho. Gerou muitas dúvidas e até questionamentos. Aqui também temos números: passamos de 197 conselheiros titulares eleitos em 2023 para 677 em 2025; de um total (titulares e suplentes) de 342 em 2023 para 826 em 2025. Os números dizem muito quando pensamos em um retrato do que foi: uma ampliação significativa dos conselheiros eleitos. Isso, por si só, indica a possibilidade de uma grande renovação nas lideranças que constroem a política de participação popular em Contagem nos próximos anos, o que necessariamente se traduzirá em qualidade da cidadania e da democracia.
No entanto, existem fenômenos mais subjetivos que não podem passar despercebidos. De um lado, assistimos a dezenas ou centenas de jovens, mulheres e idosos que participaram pela primeira vez; alguns foram ao local de votação apenas para votar e, de repente, estavam lá na frente defendendo seus pontos de vista e sendo eleitos representantes dos seus segmentos. Do outro lado, tivemos Letícia da Penha, ex-vereadora, ex-secretária, liderança consolidada e reconhecida em Contagem, que foi a conselheira mais votada. Aproveito para fazer a minha homenagem à Letícia da Penha, pela humildade e pelo compromisso com o povo que mais precisa, reafirmada e elevada a uma outra dimensão com esse gesto. Entre esses dois fenômenos, além do encontro da experiência com a renovação, fica o desafio e a tarefa de formar esse contingente de novos e legítimos representantes do povo.
O terceiro medo foi o mais difícil: digitalizar o processo, pois, além de ter de criar as condições técnicas confiáveis, tivemos que superar em nós mesmos a desconfiança com a coisa em si. Não é sem razão que desconfiemos de todos esses avanços observados nos últimos anos. A ideia de acesso livre e democrático a bens tecnológicos, bastando ter um celular em mãos e alguns dados… O buraco, como se diz, é muito mais embaixo, e quando desconfiamos é porque sussurram em nossos ouvidos questões complexas, como as profundas desigualdades econômicas, sociais, culturais e, agora, digitais. Eu não posso dizer que superamos tudo isso, mas driblamos bem.
Em primeiro lugar, conseguimos, sim, digitalizar todo o processo: candidatos e eleitores poderiam se inscrever antecipadamente pela Plataforma Decide Contagem. As candidaturas homologadas eram publicadas também na plataforma. Mas a grande novidade foi que a nossa equipe desenvolveu um sistema próprio de votação, que garantiu sigilo do voto, transparência e agilidade. A urna e a cédula de papel estavam disponíveis para serem usadas apenas em caso de falha na rede. Os eleitores votavam com o próprio celular ou em computador disponibilizado pela Prefeitura. O resultado da votação era disponibilizado na Plataforma no máximo dois minutos depois de encerrada a votação. Com 8.498 eleitores, foram apurados 47.523 votos (em 2023 foram 10.094) nas 72 plenárias.
Objetivamente, os dados dizem tudo sobre a agilidade e a transparência que alcançamos. Mas, em política, o subjetivo também é revelador. Em um tempo como o que vivemos, de guerras ideológicas contundentes, na era do chamado “capitalismo de plataforma”, em que os dados das pessoas passam a ser moeda de alto valor no mercado, pois implicam em comércio de produtos e, sobretudo, de consciências, conseguimos fazer com que o aparelho celular, mesmo que temporariamente, seja ressignificado: de um instrumento a serviço de manipulação e de sequestro do nosso tempo, para uma arma da democracia e da participação. As imagens estão disponíveis nas redes sociais da Prefeitura, e chamam atenção especialmente os idosos com o celular na mão ou no computador disponibilizado pela Prefeitura.
Tivemos um bom suporte técnico, que desenvolveu um sistema de votação confiável e inovador; painéis cuidadosamente organizados, que garantiram uma visualização simples e objetiva dos dados; uma comunicação eficiente e clara; e pessoas, servidores públicos dedicados e pacientes, colaborando para ultrapassar a barreira da exclusão digital. Esse processo revelou que essa exclusão é algo muito forte, mas revelou também que nós podemos (como fizemos) contribuir para superá-la.
As eleições dos Conselhos Regionais, em síntese, revelam o acerto da diretriz do governo da Prefeita Marília Campos em apostar na territorialização da política de participação popular, primeiro com eles, depois com o Conselho de Vilas, Favelas e Periferias. Revelam também que a utilização da tecnologia e da inovação, por meio da transformação digital, vai além de ser inescapável: é uma necessidade imperiosa para uma gestão mais eficiente, transparente e, sobretudo, mais democrática e inclusiva.
Fagner Sena é superintendente de Participação Popular da Prefeitura de Contagem e Dirigente do PCdoB de Contagem.