Durante séculos, a política — mesmo quando cínica ou violenta — foi marcada por um princípio residual: a necessidade de justificar-se. Já no Código de Ur-Nammu, elaborado por volta de 2100 a.C e considerado o mais antigo existente, o rei Ur-Nammu apresenta a si mesmo como um líder justo e piedoso, escolhido pelos deuses para governar e estabelecer a justiça e a ordem na terra. A legitimidade divina de seu reinado era reforçada pelo código escrito, tal como, bem mais tarde, nas tábuas dos Dez Mandamentos de Moisés.
O poder divino dos reis, como sabemos, veio a ser uma justificativa comum ao longo dos tempos. Assim como a defesa da ordem, a segurança, a catequização dos pagãos, a emancipação dos trabalhadores e dos pobres, dentre muitos outros argumentos.
Nas democracias ocidentais modernas, prevaleceu a justificativa grega segundo a qual o poder só é aceitável se responder perante a razão pública. Em outros termos, na vida pública, o poder de um indivíduo sobre outro precisa estar amparado em normas gerais coletivamente aceitas, na forma de leis aprovadas pela assembleia dos cidadãos. Neste caso, até os reis devem obediência a leis humanas. Esse princípio radical e inovador para a época deu à política uma dimensão argumentativa, essencial para o convencimento e para ações voluntariamente coordenadas, como assinalam, dentre outros, Hannah Arendt (1) e Jürgen Habermas(2).
Por tais razões, é assustador que o presidente de uma potência mundial moderna, ao ser questionado sobre seus motivos para agredir outra nação, responda simplesmente: “Porque eu posso.” De fato, Donald Trump respondeu assim, quando foi questionado sobre a decisão de 15 de julho de 2025 de sobretaxar os produtos brasileiros em 50% (3). Nenhuma justificativa econômica. Nenhuma preocupação com a diplomacia. Nenhum esforço retórico. Apenas a afirmação categórica do poder como razão suficiente. Uma atitude “arbitrária”, “implementada de forma caótica”, como denunciou o secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros do Itamaraty, embaixador Philip Gough, em discurso apresentado na Organização Mundial do Comércio (OMC) (4).
Ora, a justificativa não é apenas uma formalidade: é o reconhecimento de que ninguém está acima da lei e de que o governo pertence à esfera da razão comum — não ao capricho de quem manda. Essa exigência não surgiu por acaso. Ela é uma solução para as tensões nas relações de poder e corresponde a um avanço civilizatório. Significa que o mando, para ser obedecido, precisa ser legítimo, ou seja, ser reconhecido como justo, aceitável e válido pelos que estão submetidos a ele. Suas prerrogativas precisam estar assentadas em normas, valores, procedimentos ou tradições que lhe confiram autoridade legal e moral.
O mais preocupante é que a fala de Trump não é um acidente histórico. “Porque eu posso” desnuda o horizonte em que nos encontramos: uma era de efemeridades, de condenação da razão, da ação sem motivo, do hedonismo e do individualismo radical transpostos para as esferas governativas e de poder. Trata-se de um sintoma da degradação da democracia num ambiente onde a extrema-direita pretende triunfar acima da lei e da razão, afirmando-se não pela legitimidade do poder, mas pela força bruta. Esta é a linguagem franca das autocracias e da ideologia que sempre sustentou os fascismos históricos: na lei da espada, quem tem a espada faz a lei.
Nessa perspectiva, a frase de Trump não é apenas uma resposta atrevida: revela um programa de governo e uma doutrina de poder articulada por um autoritarismo sem disfarces. É sintomático, neste sentido, que a ameaça de sobretaxa venha acompanhada da exigência de suspensão dos processos contra Bolsonaro. Uma exigência moralmente obscena que expõe, pela enésima vez, o sem-cerimônia com que Trump trata a Justiça — algo barganhável, passível de constrangimento e controle.
O fato é que Trump não está tão preocupado assim no comércio exterior brasileiro. Tampouco morre de amores por Bolsonaro. Da mesma forma, não o incomodam os prejuízos que causará ao empresariado norte-americano. O que ele quer é obediência. Aqui, tanto a economia quanto o capitão reformado são apenas o meio. Não fossem eles, seria outra coisa. O fim é dobrar a soberania de uma nação governada por um bem-sucedido governo popular.
Nesse sentido, não se trata apenas de proteger as exportações brasileiras ou a soberania nacional. Trata-se de recusar a lógica de quem coloca seus interesses, desejos e preferências particulares acima da soberania e do bem-estar coletivo. Resistir, neste sentido, é um gesto de preservação de uma das maiores conquistas da humanidade: a separação entre força e direito, entre mando e legitimidade. Quando um governante age “porque pode”, ele não apenas transgride a norma — ele desinstitui o mundo comum onde as decisões são justificadas, debatidas e submetidas à crítica. Ele rompe com a tradição que transforma o poder em responsabilidade e o governo em serviço público.
Ivanir Corgosinho é sociólogo
Referências
(1) ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.
(2) HABERMAS, Jürgen. A inclusão do outro: estudos de teoria política. Tradução de George Sperber e Paulo Astor Soethe. São Paulo: Loyola, 2002.
(3) G1. “Estamos fazendo isso porque eu posso“, diz Trump sobre tarifas de 50% ao Brasil. 15 jul. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/07/15/trump-tarifas-brasil.ghtml. Acesso em: 25 jul. 2025.
(4) G1. Brasil reclama de tarifaço de Trump na OMC: “Tarifas arbitrárias anunciadas de forma caótica”. 23 jul. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/07/23/itamaraty-reclama-de-tarifaco-na-omc-tarifas-arbitrarias-anunciadas-de-forma-caotica-veja-integra.ghtml. Acesso em: 25 jul. 2025.