Quem me conhece sabe da minha paixão pela música “Divino, maravilhoso” de Caetano e Gil, eternizada pela voz insubmissa e irresistível de Gal. E ao refletir sobre esse momento do julgamento e condenação de Bolsonaro, seus versos poéticos não saíram da minha cabeça.
A começar pelo início “Atenção ao dobrar uma esquina/uma alegria, atenção, menina”, ou seja, um momento de tensão e ao mesmo tempo de alegria. Em seguida, o alerta “atenção/Tudo é perigoso”, e apesar do perigo, “Tudo é divino, maravilhoso”. Pois bem, vivemos uma quadra histórica perigosa, difícil, e, ao mesmo tempo, que pode nos deixar um legado democrático maravilhoso, caso saibamos maneja-la.
Pra mim, o fato político da condenação de Bolsonaro a 27 anos e 3 meses, carrega essa ambiguidade da música: da força da resistência e da divina esperança em meio a um momento de grave crise politica potencializada pelos ataques imperialistas de Trump. Apesar da euforia geral, o contexto nos exige muita atenção, responsabilidade e força, como nos sugere a música que amo e que insiste em me deixar em estado de alerta.
Deixando a poesia de lado, vamos aos fatos. O atual contexto político brasileiro é marcado por um momento de rara e crucial importância histórica: o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e de seus aliados por uma tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.
A repercussão da alegação final da Procuradoria-Geral da República (PGR) revela que o país se encontra em uma encruzilhada. Não se trata apenas de uma batalha no terreno judicial, mas também de uma disputa política e simbólica pela superação do golpismo enquanto cultura e expediente político das elites e dos setores militares no Brasil.
Pela primeira vez na história republicana do Brasil, um ex-presidente e militares de alto escalão vão para o banco dos réus, sendo julgados por crimes contra o Estado Democrático de Direito. Este cenário é uma ruptura direta com o histórico de impunidade característico dos crimes contra a democracia no país.
Apesar da justa sensação de alívio e alegria por estarmos presenciando a justiça sendo feita, consideramos inadequado que as nossas reações se restrinjam ao deboche e ao excesso de euforia diante da condenação de Bolsonaro e seus comparsas. A prisão dos golpistas precisa ser entendida na dimensão que realmente tem: uma manifestação importante e histórica do amadurecimento da legalidade democrática brasileira. Mas de longe, é um ponto final à ameaça golpista.
O golpismo como cultura política e permanência histórica
Em primeiro lugar, o golpismo é uma cultura e um método político historicamente enraizado em nossa nação, que transcende a responsabilização de indivíduos. A condenação dos golpistas e a luta contra qualquer medida de anistia — seja ela total ou “light” (como em discussão no Congresso Nacional) — são condições necessárias, mas não suficientes para a superação do golpismo.
Isso se deve ao fato de que militares e classes dominantes permanecem inconformados com o poder civil e com a democracia, não havendo elementos que indiquem uma mudança substancial nessa posição. Além disso, a submissão destes setores ao imperialismo estadunidense – sempre peça chave nos golpes de estado na América Latina – indicam que estarão sempre dispostos à ruptura institucional, caso a Casa Branca assim deseje.
A trajetória política brasileira é estruturada por uma sucessão de eventos que reiteram a persistência do expediente golpista, frequentemente orquestrado por figuras internas ao próprio sistema estatal em aliança com uma potência imperialista. Esse padrão remonta a fundação da nação, posterior à independência, com o fechamento da Assembleia Constituinte em 1823 e o Golpe da Maioridade em 1840, este último realizado em desrespeito à Constituição vigente. A Proclamação da República em 1889, liderada por Deodoro da Fonseca, foi outro golpe que instituiu a Primeira República. E logo depois, Deodoro fechou o Congresso em 1891, e seu sucessor, Floriano Peixoto, estendeu seu próprio mandato, evidenciando o uso do poder para além dos limites constitucionais.
A fundação do estado moderno brasileiro não superou essa cultura. O suicídio de Vargas em 1954 adiou um golpe que parecia iminente, mas os golpistas seguiram atuando, como por exemplo, nas tentativas de impedir a posse de Juscelino Kubitschek em 1955 e rebeliões como as de Jacareacanga (1956) e Aragarças (1959). Os envolvidos nesses eventos, quando julgados, foram anistiados com a justificativa de “pacificar o país”, mas logo em seguida retomaram sua atuação golpista e tornaram-se figuras chave no Golpe Militar de 1964, que resultou em 21 anos de ditadura. A Lei da Anistia de 1979 também protegeu militares de acusações por tortura e assassinato. E mais uma vez a anistia foi peça fundamental da impunidade, mantendo seu padrão como ferramenta de uma tradição golpista que seguia impune em nossa história.
A redemocratização que fundou a Nova República, com base na Constituição de 1988, não teve força para superar definitivamente a cultura golpista. Nenhuma reparação histórica foi realizada, como ocorreu em outros países com situações similares – caso da Argentina e Uruguai que julgaram e condenaram os criminosos de suas ditaduras. Assim, a certeza da impunidade abriu espaço, em 2016, para o golpe parlamentar e midiático, disfarçado de impeachment, que retirou Dilma Rousseff da Presidência da República e deu lugar para a ascensão da extrema-direita, consolidando o golpismo como uma herança maldita difícil de se livrar.
A ausência de punição e justiça em defesa da democracia junto à baixa memória social do perverso passado autoritário, dificultam a superação dessa cultura antidemocrática. Aqui reside a relevância dos julgamentos em andamento no STF contra Bolsonaro e seus apoiadores. Eles representam uma chance de romper com a impunidade e construir um novo imaginário, onde a democracia seja inegociável.
Mas para ir além da sensação de que a “justiça foi feita”, precisamos alertar a todos que a comemoram prematuramente. O julgamento e condenação de Bolsonaro e seus comparsas abre uma brecha histórica para pautarmos e atuarmos no sentido de reformar as instituições estatais, dentre elas, as Forças Armadas. Mas sobretudo, criar uma nova maioria na sociedade que tenha capacidade de se defender das investidas autoritárias, porque nenhum golpe é executado sem uma base social que o apoie, por menor que seja.
Os ventos do Norte
“É preciso estar atento e forte”, já nos alertava Gal em sua poesia cantada. A condenação do Bolsonaro não é a última página, é a inauguração de um novo capítulo da disputa. Agora, a batalha da anistia tende a ser o centro da agenda política do país, e se os setores democráticos não tomarem as devidas providências, as eleições de 2026 podem se transformar em um plebiscito sobre uma suposta “pacificação do país”, qual seja: a de garantir a impunidade por meio da farsa da anistia.
A condenação de Bolsonaro não garante a sua permanência na prisão se a vitimização prevalecer sobre a responsabilização no seio da sociedade. Os setores pró-anistia no Congresso Nacional já estão se movimentando, e se tiverem apoio social, podem dobrar a aposta. A Casa Branca pode aproveitar esse contexto para elevar a pressão contra o governo Lula, ampliando as operações da Guerra Híbrida em curso contra o Brasil e aprofundar a estratégica de desestabilização permanente dos estados nacionais não completamente subordinados a Washington. Do ponto de vista da geopolítica, o Brasil é um dos alvos principais do imperialismo estadunidense pois é o elo do BRICS que Trump deseja quebrar para enfraquecer o projeto multipolar, gestado no Sul Global.
É preciso ter a vigilância necessária com as possibilidades de cenários que se abrem com a condenação de Bolsonaro e do golpismo pelo STF. Algumas perguntas que podem nos fazer refletir: “Os EUA reconhecerão qualquer resultado das eleições de 2026?”, “É possível que Eduardo Bolsonaro se torne um “Guaidó” tupiniquim ungido pela Casa Branca?”, “Como se comportarão os militares e os banqueiros neste contexto?” “Como será a postura das Big Techs e da grande imprensa?”, “Quais instrumentos temos para organizar uma resistência soberana no Brasil?”. São questões que nos provocam desde já e merecem a nossa atenção.
Brasil Soberano x traidores da pátria
Não há indícios de que a temperatura política vá baixar, pelo contrário, as recentes mobilizações bolsonaristas em 7 de setembro confirmaram as intenções da extrema-direita, já evidentes no episódio do “tarifaço de Trump”: eles estão dispostos a apoiar os interesses estadunidenses no Brasil para minar as instituições democráticas e o projeto do Governo Lula.
Em outras palavras, a intervenção estrangeira contra o Brasil possui uma base social significativa e lideranças políticas dispostas a trair os interesses nacionais: se aliar aos inimigos e irem às últimas consequências do expediente golpista, contando com o apoio direto do imperialismo. Os traidores da pátria não têm nenhum pudor em bradar a sua traição.
É nesse contexto que a soberania nacional brasileira passa a ser o centro do debate para além da luta entre “esquerda” e “direita”. As fronteiras de demarcação ideológicas mudaram de qualidade após o tarifaço, agora é a disputa entre soberania e submissão. O Governo Lula, ao assumir o lema “Brasil Soberano”, criou um novo referencial para a nossa pedagogia política, uma ideia-força com ampla capacidade de conscientização e organização em grande escala. Quem pode ser contra a soberania nacional? Somente aqueles que, com desonra, já selaram seu destino com o poder estrangeiro e traíram a pátria.
Agora, cabe aos movimentos, partidos do campo democráticos, a intelectualidade, as instituições do estado e da sociedade, assumirem essa ideia-força. O campo da defesa da soberania nacional é mais amplo e necessitará de muita capacidade de direção para ser manejado. Nesse sentido, qualquer sectarismo deve ser combatido, pois a defesa intransigente da soberania do Brasil é o único radicalismo consequente neste momento.
Diante do cenário golpista e de luta antiimperialista, ser amplo politicamente é a forma possível de ser radical. O papel das esquerdas neste contexto é central. Caberá a nós a tarefa de liderarmos a defesa da nação contra os ataques externos e os conspiradores internos, assumindo a capacidade orientadora de um campo de forças heterogêneo e contraditório. Isso não é tarefa fácil e não se resolve imediatamente. Entretanto, precisamos nos preparar imediatamente pra essa batalha. Nosso futuro como país depende dela.
A luta pela soberania e democracia no dia a dia da cidade
Junto com a ideia-força “Brasil Soberano”, temos de disputar o sentido social da soberania. A luta contra o golpismo e o autoritarismo não se restringe à esfera judicial ou política. Ela se expande para as ruas e para a economia. A agenda de políticas públicas, focada em direitos sociais e justiça econômica, não é um tema secundário; é a resposta estratégica de longo prazo para fortalecer a democracia e a soberania.
O golpismo de extrema-direita se alimenta de sentimentos de frustração, ressentimento e alienação, muitas vezes exacerbados pela precarização do trabalho e pela injustiça social. Enquanto essas condições permanecerem, permanecerá também a possibilidade de utilização da justa insatisfação social para a desestabilização da democracia. Justiça social é, em si, um ato de defesa da democracia.
Pautas de forte apelo popular, como o fim da escala 6×1, a redução da jornada de trabalho sem corte de salário e a Reforma Tributária — que inclui a taxação de grandes fortunas e a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais —, são cruciais para conectar a defesa da democracia e da soberania com a realidade diária das pessoas.
Nesse contexto, o Plebiscito Popular por um Brasil mais Justo é uma campanha de suma importância, devendo ser amplamente promovida como ferramenta de trabalho de base e de diálogo direto com as necessidades dos trabalhadores mais vulneráveis. Apenas quem compreende o que pode perder com o fim da democracia e da soberania estará disposto a defendê-las. É por isso que vamos intensificar nossas ações de rua do mandato atrelado ao plebiscito popular e às suas pautas.
Cabe lembrar que nosso Gabinete tem sido uma importante trincheira da luta por soberania em Contagem. Durante a semana e aos finais de semana estamos com o Gabinete de Rua, uma intervenção do nosso mandato que procura retomar ações políticas bem-sucedidas de gerações petistas anteriores na cidade, como a Prefeita Marília quando foi vereadora e Deputada e do mandato da nossa companheira Letícia da Penha. Temos distribuído nosso jornal, buscando manter um diálogo direto com a população e temos levado as urnas de votação do plebiscito, dialogando, mobilizando e politizando o debate em nossa cidade.
Ações políticas desta natureza combinam algo caro ao nosso desafio atual, que é combinar o binômio redes e ruas. Não é mais possível deixarmos as ruas desocupadas. A política deve ocupar o cotidiano da cidade. Como bem nos lembram Marilia Campos, Margarida Salomão e o companheiro Edinho, é preciso recuperar o espírito municipalista no seio do Partido dos Trabalhadores. Ao mesmo tempo em que realizamos essas ações, jamais deixamos de ocupar e realizar ações no território digital. Nosso mandato, nesse sentido, tem conseguido trazer bons resultados, na medida em que consegue defender o governo e o legado da Prefeita Marília Campos e divulga as posições e ações do mandato, atingindo uma parcela considerável de visualizações nas redes e impacto presencial na cidade.
Em suma, a condenação de Bolsonaro nos abre uma brecha histórica para sepultar a cultura antidemocrática e golpista em nosso país, mas isso exigirá de nós muita responsabilidade, maturidade e aprimoramento de nossa capacidade organizativa e de luta diante do cenário de defesa da nossa soberania.
Portanto, a nossa celebração deve se dar nas ruas por meio de muito diálogo, politização da defesa do Brasil para os brasileiros e de uma pedagogia política da escuta e do respeito. O que não nos impede de nos alegrar com os avanços que todo esse processo representa pra nossa luta democrática, sem perder a perspectiva da longa batalha que teremos pela frente. Esse é o desafio que devemos estar à altura de responder.
Adriana Souza é graduada em história e vereadora de Contagem (PT)