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Hamilton Reis: Ele era a notícia

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Quando acordou não havia mais vestígios do silêncio noturno que aprendera a amar. A cidade repetia seus barulhos incessantes. Os automóveis pareciam passear pelo quarto. Espreguiçou-se. Rolou na cama e se deu conta de que estava absolutamente sozinho. Sentiu cheiro de comida no ar. Já era quase hora do almoço, constatou espantado, olhando no relógio. Foi quando viu um bilhete em cima de suas roupas na cadeira. Espreguiçou-se novamente. Caminhou sem pressa, foi ao banheiro e lavou o rosto. Sentiu a água fria devolvendo-lhe a vida. O estômago deu sinal de alerta. Antes de vestir a roupa pegou o papel. Sentou-se e reparou primeiro a caligrafia. Letras trêmulas. Era um pedido de desculpas. Alegando necessidade, ela explicava por que tinha levado parte do dinheiro que tinha na carteira. Não se importou. Na verdade, ficou encantado com o beijo de batom, que para ele valia mais do que todas as palavras. Sentiu-se por um instante importante. Sorriu. Desceu as escadas, espiou as manchetes na banca de revistas. Os camelôs ocupavam a maior parte das calçadas, as pessoas abarrotavam as ruas, o burburinho de vozes misturava-se ao barulho dos carros.

Era a quarta-feira dividindo a semana ao meio. Precisava passar no jornal, pegar um cheque, ir ao banco, comprar umas frutas. Mas estava calor e rapidamente se convenceu de que o melhor a fazer era almoçar primeiro. Antes o ócio, depois o dever. Não era bom alterar a ordem natural das coisas. Desceu lentamente os degraus e esbarrou com a vizinha que vinha subindo como se fosse de outro mundo. E parecia mesmo. Afinal, não fosse ela uma criatura de outro planeta o que explicaria andar de tamancos diariamente após as dez da noite? E no andar acima do dele, como se fosse a qualquer instante atravessar o teto e cair de testa no piso de tacos gastos, mas bem limpos graças aos caprichos da diarista que ia todas as quintas cuidar do apartamento.

Quando já estava na rua viu uma criança atravessando o calor da tarde de mãos dadas com a mãe. Era uma menina, vestido estampado, cabelos soltos, um sorriso nos lábios, passos confiantes. A mulher tinha um olhar tranquilo e as duas pareciam estar a caminho do cinema. Estavam perto do shopping e dava para chegar a tempo da próxima sessão sem precisar apressar o passo. Ficou observando as duas até que elas se distanciaram e só então percebeu que Celso estendia a mão e pedia uma moeda. Não que ele tivesse pronunciado qualquer palavra. Não era preciso. Força do hábito. E se fosse perguntado se era para tomar café ele diria que não ia mentir. Era para cachaça. Com suas roupas encardidas e o odor típico de quem se desacostumou com o banho, o morador de rua é parte da paisagem. Ainda que para alguns, pareça invisível. Ele mesmo não o enxergava. Até o dia em que o personagem, de forma desconcertante, o perguntou se ele se achava melhor do que os outros para ignorar a sua presença. Desde então, mudou seu comportamento. E às vezes tira do bolso o níquel que vai alimentar o vício do pobre homem.

O calor não abrandava. Entrou no restaurante, procurou a mesma mesa de sempre. Tinha velhos hábitos. Sentar-se no mesmo lugar, repetir as mesmas comidas. Naquela tarde não seria diferente e o lugar parecia esperar por ele. Quando veio a atendente perguntar se ia beber algo reparou no tom suave da maquiagem, no batom discreto, nos imensos olhos castanhos. Não, não ia beber nada. Não é bom misturar líquidos com a comida tinha ensinado a nutricionista. Atrapalhava a digestão. Comeu pouco, precisava controlar o peso, e só desta vez, prometeu, iria aceitar a sobremesa. Pudim de leite. Uma delícia. Caprichou no tamanho do pedaço e ficou degustando lentamente, apreciando o doce. A vida precisava desses momentos, pensou.

Resolveu fazer uma caminhada pelo bairro antes de passar na redação. O jornal era semanal e não tinha urgência na matéria que precisava apurar. Era uma denúncia de corrupção contra o prefeito, alguma coisa que envolvia pagamento indevido de aluguéis. Algo que, se tivesse oposição na cidade, seria um escândalo. Mas não era o caso. Então precisava seguir o surrado roteiro: ouvir o denunciante, checar as informações, tentar falar com alguém da Prefeitura, repercutir o caso. E esperar por algum desfecho que pudesse esquentar as edições seguintes.

Pensava no trabalho e nem percebeu a movimentação do outro lado da avenida. Dois meliantes tinham deixado a agência bancária com malotes na mão. De uma viatura, que passava por acaso pelo local, saiu um sargento, que tinha percebido a fuga. Já desceu com a arma empunhada. Começou uma troca de tiros e antes que percebesse, um deles, não se sabe se disparada pelo policial ou por um dos bandidos, viajou por alguns metros e o atingiu em cheio no peito. Desmoronou em segundos e enquanto caía foi como se um filme passasse por sua mente. Então era verdade aquela história de que se viam os principais acontecimentos da vida passar por você quando estava morrendo, pensou. E aceitou o clichê. Viu-se garoto ainda, subindo a avenida para levar almoço para o pai na vidraçaria. Calças curtas. Viu o escritório da Gazeta, onde publicou seus primeiros textos. Viu o pátio imenso da escola enfeitado em dia de festa, a sala de aula, as professoras, a primeira namorada, o primeiro beijo, as imagens aceleradas, a noite em que se sentiu um homem de verdade, completo, apaixonado. O primeiro filho, a casa velha de dois andares, o sorvete de pistache em um dia muito quente, o vinho branco… e então se viu de volta, sentiu o sangue sujando a roupa, escorrendo do passeio e fazendo uma poça no asfalto. Lembrou-se do bilhete, do batom e da boca que tinha sido sua, até que não pensou em mais nada.

A quarta-feira dividia a semana ao meio e a tarde dividia em dois o dia. Ele morreu sem ter ido a Paris, sem ter dito ao filho o quanto o amava e sem pagar a última prestação da tevê que comprou para assistir a Copa em tela grande. E já estava quase na hora da abertura. Tanta coisa acontecendo no mundo naquele momento, tantas palavras a serem ditas e pela primeira e única vez, ele era a notícia.

Hamilton Reis é advogado e jornalista.

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