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Hamilton Reis: Eles e ela

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Foi por um triz. Quando o ônibus descia o viaduto um carro menor entrou em sua frente e o motorista freou bruscamente, conseguindo evitar a colisão. Teríamos capotado e caído na pista debaixo, comentou o cidadão que estava ao lado dele, depois de ter xingado um palavrão dirigido ao outro que quase provocou o acidente.

Alguns metros adiante ele desceu no ponto de sempre e voltou a pensar nos filhos. Por pouco não poderia contar aquela história para eles. Na verdade, lia uma revista e quase não sentiu o impacto. Uma senhora que estava distraída desceu no mesmo lugar que ele e enquanto a porta não abria se queixava de dores provocadas quando foi arremessada para o banco da frente. Sem conseguir elaborar nenhum comentário apenas deu um sorriso, meio solidário, meio sem saber o que dizer.

Primeiro pensou no caçula. O pequeno tinha chegado aos 49 do primeiro tempo. E está naquele momento mágico das descobertas. Esboça as primeiras palavras e enquanto elas não saem inteiras, emite alegres grunhidos que de vez em quando parecem com os sons que a mãe quer ouvir. Serelepe, já se arrasta pela casa, coleciona quedas e investiga todos os detalhes do mundo à sua volta. Suas descobertas, sons e fases são o assunto do dia do casal e de toda a família, que tem a sorte de vê-lo estampando a bela figura nos grupos da família dele e dela.

Depois foi a vez da que era caçula e se tornou a do meio. E que vibrou porque continua sendo a única dos três. Em sua adolescência, cercada de livros – alguns que ainda não leu, é verdade – ela continua a mesma menina meiga e doce. Embora aos 15, quase 16, esteja seriamente envolvida no namoro e enfrentando algumas dificuldades com as Exatas, sempre elas, a aturdir a vida da estudante. Dia destes disse que pensou em ser jornalista, para indisfarçável satisfação do pai, um amigo das letras.

Por fim veio a lembrança do primogênito. Distante. O sujeito ensimesmado que a tanto tempo não vê. E que convive em seus labirintos, imaginando alienígenas, respirando outros ares, enrodilhado pela poeira do próprio quintal. Nem sempre estiveram afastados. Viu o menino crescer, virar adulto, buscar os próprios caminhos. Dizendo que ia se encontrar. Repetindo ao longo dos anos as mesmas histórias, prisioneiro de contradições que não entende e de certezas que não o levam a lugar nenhum.

Pensou nos três e pensou no avô deles. Um homem corajoso, que não se entrega a doença maldita e que prolonga a sua estadia ainda que a vida, aos olhos dos outros, não pareça ter sentido. Ainda que não seja mais capaz de reconhecer as próprias crias nitidamente. Ainda que agora seja apenas um esboço daquilo que foi em tempos outros. Um sujeito de virtudes e defeitos, que marcou sete vidas, que vai levar com ele as marcas que deixou e que vai se prolongar enquanto for alcançado pela memória dos que ficam.

Entretido com seus pensamentos, não percebeu que tinha descido uma rua diferente, mudando o itinerário conhecido e rotineiro. Repetido automaticamente até então. Foi quando quase tropeçou naquela árvore. Embora conhecesse bem a região, não tinha lembrança de conhecê-la. E assim a viu com os olhos da primeira vez. Suas raízes, expostas à altura do passeio, formavam uma espécie de muralha, quase um esconderijo, para só então o tronco subir sólido e imponente. Sim, era bela. Forte.

Sentiu uma alegria leve. Uma satisfação com a descoberta. Queria ver aquela magnífica espécie outras vezes. Descobrir seu nome. Contar para todos como foi aquele encontro. Foi como se tivesse ganhado um presente. Como se recebesse uma recompensa depois do susto no ônibus. Percebeu com um sorriso a conexão entre o que tinha acontecido. A morte tinha passado perto. A mesma que ainda persegue seu pai. E teve o quase tropeço nas raízes enquanto lembrava dos filhos, seus três herdeiros, razões para ele ser resistir. Filhos que são como sementes que são espalhadas ao vento e que em breve poderão gerar seus próprios frutos. E que vão contar outras histórias, pois a existência não tem fim.

Hamilton Reis é jornalista e advogado.

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