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Hamilton Reis: Eu te renomeio parque Giovana Cataguás

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No dia 3 de setembro de 2021, após dez anos fechada, a Área de Preservação Ambiental – APA Parque Fernão Dias foi reaberta. Pessoas de toda a cidade estiveram presentes para conferir as melhorias que permitiram que o espaço voltasse a ser uma opção de lazer e cultura para moradores e moradoras da região Riacho e da região metropolitana da Grande BH.

Na solenidade festiva, estiveram lado a lado a prefeita de Contagem e o governador de Minas Gerais. Marília Campos, a anfitriã, vinda de uma relação afetiva com o lugar. Durante sua vida pública sempre foi amiga do meio ambiente e, em seus sucessivos mandatos no legislativo, esteve à frente de iniciativas de proteção e cuidado com as áreas verdes. Foi dela, então deputada estadual, a autoria da lei nº 22.428, de 2016, que transformou o parque em Área de Preservação Ambiental, estabelecendo medidas para a sua conservação. Além disso, destinou emendas ao orçamento do estado para a recuperação do local.

Já Romeu Zema foi quem acolheu, depois de reiterados pedidos da prefeita, a parceria com a Prefeitura, por meio do Instituto Estadual de Florestas – IEF, órgão vinculado à Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável – Semad. Inicialmente foram investidos R$ 400 mil, possibilitando a revitalização da fachada principal, parte das quadras e dos espaços de convivência, salvando a área do abandono a que foi submetida por governos anteriores. A omissão do poder público levou inclusive ao desmatamento ilegal, com a perda de parte da vegetação nativa.

Ainda eram tempos de pandemia e todos e todas estavam devidamente usando máscaras no tablado preparado para a solenidade, há cerca de quatro anos. Além das autoridades, uma pessoa ocupou posição de destaque: Giovana Santos Reis. Aos 13 anos de idade, coube a ela, estudante do ensino fundamental 7 do Colégio Santo Agostinho, discursar como representante da comunidade.

A escolha não se deu por acaso. Meses antes, ao participar de uma aula on line de História a convite da instituição agostiniana, Marília respondia a perguntas dos alunos e alunas. Quando chegou a sua vez, Giovana inquiriu porque uma área de preservação tão importante tinha o nome de um bandeirante, conhecido por escravizar e matar milhares de indígenas no período colonial. Não seria interessante renomear o parque homenageando alguma das tribos nativas do estado, quis saber, após fazer uma pesquisa rápida na internet e citar algumas delas.

A indagação chamou a atenção da prefeita, que pediu a professora que depois enviasse a ela o nome e o contato da estudante. E foi assim que a minha sobrinha (o sobrenome não é coincidência) fez parte daquele momento especial, para orgulho da família.

A sugestão que fez na época, não foi levada adiante. Foi preciso que a ideia amadurecesse e só depois de um ano ela foi retomada. Giovana não teve os créditos justos e merecidos. A escola tratou a proposta como uma elaboração coletiva e ao longo dos anos seguintes intensificou o propósito: coletou assinaturas e apoios, participou de audiências e reuniões, fez manifestações. E, após longa e intensa caminhada, o projeto apoiado pelas deputadas Beatriz Cerqueira (PT) e Bella Gonçalves (Psol) foi aprovado na Assembleia Legislativa e tornou-se a Lei nº 25.366, sancionada no dia 21 de julho de 2025.

Poucos dias depois estive no Cataguás. O porteiro, quando perguntado, rejeitou a troca do nome, com aquela típica resistência a mudanças. Todos estão acostumados com Fernão Dias, para quê trocar? E para justificar a mesmice quis saber se a rodovia 381, que liga São Paulo a Minas, também será renomeada. A dica é boa e a mudança seria bem-vinda.

Minha visita, para além da troca de nome idealizada inicialmente por Giovana, teve muito de nostalgia. Tive a oportunidade de percorrer parte da imensa área (mais de 98 hectares) e reencontrar uma das quadras antigas, ainda não reformada. Recordei as nossas caminhadas desde a rua Flamboyant, no Eldorado, até ali. Mais de dez quilômetros entre a ida e a vinda. Jogávamos futebol até a exaustão e depois nos deliciávamos nas duchas. Diversão e aventura garantidas para a nossa turma de adolescentes, unida e bem disposta.

Como de outras vezes em que ali estive, me lembrei da inauguração do parque, em maio de 1980. Eu tinha 13 anos de idade, por coincidência a mesma idade da minha sobrinha, quando participei da festa. O prefeito era José Luiz da Cunha e o governador era Francelino Pereira. Pelas placas de identificação é possível que eles tenham participado daquele dia, mas o que foi mesmo marcante foi o show do cantor sertanejo Sérgio Reis, no auge de sua carreira, se apresentando em um palco armado no que deveria ser (e nunca foi) um teatro de arena, improvisado em meio a grama recém plantada e a poeira que se misturava no ar de uma tarde quente.

Fico contente de voltar ao parque com a família e por ser parte da história dele. Aos 45 anos, o agora Cataguás merece ser visitado, preservado e resgatado em sua plenitude, para continuar sendo um ponto de encontro de gerações.

Hamilton Reis é jornalista e advogado.

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