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Ivanir Corgosinho: Romeu Zema, o mercador de ilusões

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O governador de Minas, Romeu Zema, parece determinado a chegar à presidência do Brasil. Em agosto, lançou sua pré-candidatura presidencial em um evento do Partido Novo em São Paulo e tem aparecido em diversos meios de comunicação em entrevistas que estão chocando o país. Aos 60 anos, Zema, administrador formado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP) e ex-presidente do conselho de administração do Grupo Zema, busca difundir a imagem de político de direita com propostas neoliberais e gestor eficiente, técnico e moderno, apresentando Minas Gerais como seu “case” de sucesso para alçar voos nacionais.

As aparições, entretanto, têm gerado polêmicas e constrangimentos, seja pelas impagáveis gafes do governador, seja por seguidas demonstrações de desinformação, seja pelo desnudamento de seu neoliberalismo radical, tosco e autoritário. Desta forma, a imagem que Zema tenta trabalhar contrasta com aquilo que as pessoas veem e – mais ainda – com a realidade de suas realizações no estado. Este artigo pretende abordar esse mercador de ilusões chamado Romeu Zema, examinando suas ideias, propostas e realizações.

Um oportunista de extrema-direita

Embora se diga um democrata, Romeu Zema é um governante autoritário. Talvez, o exemplo mais notável de seu autoritarismo esteja na PEC 24/23, que encaminhou à Assembleia Legislativa do estado. Chamada de “PEC do cala boca” pelos(as) parlamentares do Bloco Democracia e Luta, que se opõe ao governador, a PEC retira a exigência de referendo popular para privatização de empresas estatais no estado. O texto também propõe revogar artigo que exige quórum de três quintos dos membros da Assembleia para aprovar alteração da estrutura societária ou outras mudanças nas empresas públicas. A proposta está em tramitação e, se for aprovada, o quórum qualificado e o referendo deixarão de ser exigidos para privatizar empresas públicas mineiras. Essa medida contraria a vontade expressa da população, que, em plebiscito, se posicionou amplamente contra a venda dessas empresas públicas.

De fato, tem crescido a percepção de que o governo recorre a recursos autoritários para impor suas decisões. Em 2024, por exemplo, o governador assinou o decreto 48.893/2024, simplificando os procedimentos de licenciamento ambiental de grandes empreendimentos econômicos no estado. O decreto retirava a necessidade de consulta aos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. O decreto teve seus efeitos suspensos pelo ministro Flávio Dino que considerou inconstitucional a limitação das normas da Convenção 169 da OIT via um mero decreto estadual. Finalmente, o decreto foi suspenso pelo STF e revogado por Zema.

A concepção autoritária também se expressa em declarações públicas. Entre elas, estão as que minimizam a tentativa de golpe de Estado no 8 de janeiro, os pedidos de anistia para os condenados neste caso e posicionamentos estapafúrdios como descrever a Inconfidência Mineira como um “golpe” à Coroa Portuguesa e compartilhar citações de Benito Mussolini defendendo restrições à liberdade individual, e do ex-presidente norte-americano James Madison associando a democracia à escolha de tiranos.

Embora essas declarações o aproximem da direita golpista, Romeu Zema não pode ser identificado como um aliado fiel do clã Bolsonaro. Por isso, foi um dos governadores chamados de “rato” por Eduardo Bolsonaro. Ocorre que o governador se elegeu, pela primeira vez, na ascensão bolsonarista de 2018. Na época, Zema era filiado ao Novo, que lançara Amoêdo na campanha para a Presidência da República. Durante o debate com os candidatos ao governo de Minas Gerais, promovido pela Rede Globo em 2 de outubro de 2018, Zema afirmou que “aqueles que querem mudança, com certeza, podem votar nos candidatos diferentes, que são o Amoêdo e o Bolsonaro”. A declaração, vista como infidelidade partidária pela direção nacional do Novo, foi o que o levou ao governo de Minas. Para Eduardo, Zema deve isso ao pai.

Entretanto, desde então, o relacionamento de Zema com Bolsonaro revela um oportunismo estratégico, alternando momentos de aproximação e distanciamento do ex-presidente e de seu troupe, conforme a conveniência. Em 2022, no 1º turno, o governador apoiou oficialmente Luiz Felipe D’Ávila (Novo) na disputa presidencial, que obteve míseros 0,47% dos votos do dia 2 de outubro. Foi uma clara estratégia para não se indispor com a parcela do eleitorado que votava nele, mas também em Lula. No segundo turno, já eleito, “resolveu virar bolsonarista”, como ironizou Lula. Atualmente, tem enfatizado que ele e ex-presidente nunca foram do mesmo partido e que não pensam da mesma forma sobre tudo. Com isso, busca atrair eleitores moderados, que rejeitam o estilo brutamontes de Bolsonaro. Por outro lado, compromete-se com um indulto ao ex-presidente caso seja eleito, reforçando a conexão com setores extremistas da direita.

Finalmente, há o pequeno apego à transparência. O governador tem sido alvo de diversas críticas relacionadas à falta de transparência em sua gestão e um dos pontos mais recorrentes diz respeito aos incentivos fiscais. O Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG) e parlamentares da oposição cobram a divulgação de informações sobre as empresas beneficiadas, mas os dados permanecem ocultos. No programa Roda Viva (25/08/2025), Zema afirmou que só divulgará os dados sobre as isenções fiscais concedidas a empresas no estado “no dia em que todos mostrarem, Minas vai estar junto”, justificando que poucos estados oferecem transparência nesse aspecto e que, ao divulgar as informações, Minas poderia prejudicar sua competitividade econômica. Essa declaração evidencia que, para o governador, a transparência não é um valor em si, mas um recurso a ser utilizado estrategicamente quando convém.

Essa promessa de eficiência, apresentada como modernização da máquina pública, é mais uma de suas ilusões: por trás dela, esconde-se a entrega de patrimônio coletivo e benefícios privados ao próprio círculo de poder.

Todavia, o que realmente marca o autoritarismo de Zema é seu antipetismo visceral.

O antipetismo radical de Romeu Zema é um pilar central de sua identidade política e tem sido um elemento estratégico em sua trajetória, desde sua candidatura ao governo de Minas Gerais em 2018 até sua atual pré-candidatura presidencial. Por exemplo, ele chega a atribuir ao PT os motivos para sua entrada na política: “Até os 53 anos a minha vida foi empreender e eu sempre tomei até aversão à política, mas aí veio a crise da Dilma, tive que reduzir o quadro da empresa e aquilo me fez ficar indignado, e em Minas foi pior ainda com o governo Pimentel. E foi neste momento que veio o convite do Partido Novo.”, disse em recente entrevista ao Globo.

Em 2018, Zema capitalizou a crise fiscal de Minas Gerais, atribuindo-a majoritariamente ao governo de Fernando Pimentel (PT, 2015–2018), apesar de fatores estruturais como a Lei Kandir, a dívida pública histórica e outros fatores. Frases como “o PT quebrou Minas” foram centrais em sua campanha e ressoaram forte junto ao eleitorado bolsonarista, que ele tentava cativar. Em 2022, Zema manteve o discurso anti-PT, destacando “os estragos feitos pelo governo do Fernando Pimentel”.

Nesta pré-candidatura presidencial, Zema intensificou o antipetismo, prometendo “varrer o PT do mapa”, além de declarar que os grandes inimigos do Brasil são o PT, Lula e o crime organizado, reforçando de forma contundente a centralidade do antipetismo em seu projeto político e sua disposição em polarizar a arena eleitoral.
Esse posicionamento não surge no vazio: colocando a rejeição ao partido no centro de sua narrativa política, Zema mantém um canal de diálogo aberto com o público bolsonarista e transforma a oposição antipetista em um instrumento de mobilização permanente e diretriz central da estratégia eleitoral e política do governador.

No resumo, Zema usa do mais crasso oportunismo político e de hostilidade ideológica como ferramentas para alavancar sua caminhada ao poder.

Entre a imagem e o tropeço: um governador despreparado

Embora se apresente como um gestor acima da média, Romeu Zema acumula episódios públicos que, em conjunto, revelam uma fragilidade incompatível com a promessa de superioridade técnica que marcou sua trajetória política. Não se trata apenas de deslizes isolados, mas de um padrão que vai da gafe inofensiva à mais completa demonstração de ignorância, passando por atitudes incompatíveis com a liturgia do cargo.

Por exemplo, em agosto de 2025, durante o Roda Viva, Zema afirmou não ser uma pessoa “beliscosa”, confundindo o termo com “belicosa”. Anos antes, já havia protagonizado o famoso “eu ovo”. Nenhuma dessas situações compromete a gestão em si, mas passam a imagem de um governante que tropeça na linguagem e se apresenta como uma espécie de Jeca Tatu, deslocado no espaço público.

Mais graves são os equívocos de conteúdo e de política pública, que colocam sob suspeita suas qualificações diante das responsabilidades administrativas. Durante a pandemia, em 2020, Zema demonstrou desconhecer o papel da Fundação Ezequiel Dias (Funed), uma das instituições científicas mais importantes do país, referência em vacinas e saúde pública. Em 2023, cometeu erros de cálculo em números orçamentários, sinalizando descuido em questões elementares da gestão. Em agosto de 2025, voltou a expor essa fragilidade ao apresentar como proposta inédita a manutenção do Bolsa Família por um ano para beneficiários que conseguissem emprego — medida que já estava em vigor desde 2023. O anúncio redundante foi amplamente criticado por especialistas e reforçou a percepção de que o governador desconhece as próprias políticas públicas existentes.

Por fim, há episódios que não podem ser classificados como simples gafes nem como equívocos técnicos, mas como pura molecagem. Em fevereiro deste ano, Zema publicou um vídeo em que aparecia comendo banana com casca para ironizar a alta no preço dos alimentos. O gesto, que justificou alegando ter consultado uma nutricionista, foi recebido com críticas severas de autoridades, como o ministro Renan Filho, que o comparou a um personagem infantil. A reação não o fez recuar: pouco depois, divulgou até uma receita de geleia com casca de banana, insistindo no tom de provocação política.

Esses diferentes tropeços — do lapso verbal ao equívoco administrativo, passando pela encenação caricata — compõem a imagem de um governante despreparado, risível e também e provocador. Zema prometeu competência acima da média e superioridade técnica, mas o que oferece é gafes, superficialidade e gestos de autopromoção.

Neoliberalismo radical

Finalmente, sob a perspectiva da gestão pública, Romeu Zema evidencia uma visão de mundo que privilegia interesses privados e benefícios pessoais em detrimento do bem comum, sobretudo das populações mais vulneráveis. Suas declarações e práticas administrativas revelam uma clara ausência de solidariedade e empatia em relação aos trabalhadores e aos necessitados, refletindo uma lógica centrada no mercado, na conveniência política e nos ganhos pessoais.

Não se trata, portanto, apenas da defesa de uma política radical de privatização de empresas estatais estratégicas, como a Cemig ou Copasa, ou, ainda, da terceirização de serviços de saúde geridos pela Fhemig (Fundação Hospitalar de Minas Gerais). O que Zema busca, na realidade, é dispor dos bens públicos segundo sua conveniência pessoal, utilizando como justificativa a premiação da competência e do mérito. Essa postura se traduz, por exemplo, em sua oposição declarada à Lei de Licitações, que, ao regulamentar contratações públicas, limita a capacidade do governante de escolher livremente fornecedores conforme interesses próprios.

Diante desse impedimento legal, Zema direciona esforços para aumentar a parcela da riqueza socialmente produzida destinada ao estrato mais rico da população. Isso se materializa por meio de uma política consistente de redução do Estado — retratado como um cabide de empregos e fonte de desperdício e corrupção —, transferência de patrimônio público para a iniciativa privada, cortes significativos em programas de mitigação da pobreza e, de forma geral, pela priorização de incentivos econômicos a setores associados a seu projeto político.

É importante destacar que, naturalmente, a política implementada pelo governador também lhe oferece benefícios pessoais diretos. Exemplos disso incluem o escandaloso aumento do próprio salário em proporção muito acima da reposição das perdas inflacionarias, a concessão de incentivos fiscais a setores que contribuíram para sua campanha eleitoral e a construção de obras públicas que favorecem diretamente propriedades de sua titularidade.

Paralelamente, Zema demonstra reiterada aversão às populações mais pobres. Declarações depreciativas sobre nordestinos, críticas sistemáticas ao programa Bolsa Família, a percepção de moradores de rua como “problemas estéticos” urbanos (“as ruas estão sendo transformadas em chiqueiros“) e o veto a recursos destinados ao Fundo Estadual de Combate à Miséria constituem exemplos claros de preconceito institucional e negligência social. Esses elementos evidenciam não apenas falta de empatia, mas também a intenção de consolidar um modelo de governo que favorece a concentração de riquezas em detrimento de direitos básicos de vastas parcelas da população.

Em síntese, a gestão de Zema promete prosperidade, mas entrega um cenário marcado pela ampliação das desigualdades sociais, precarização de serviços públicos essenciais e enfraquecimento das políticas de proteção social. O discurso de eficiência e meritocracia, utilizado para justificar cortes e privatizações, encobre a realidade de um Estado que se retira de suas funções fundamentais, facilita a concentração da riqueza e deixa as populações mais vulneráveis desprotegidas e subordinadas às forças de mercado.

A Minas Gerais de Zema é um “case” de sucesso?

O governador, frequentemente, apresenta Minas Gerais como um “case” de sucesso, como dito anteriormente. No entanto, uma análise mais detalhada revela que o estado está praticamente falido e virtualmente inadministrável.
A dívida pública de Minas Gerais cresceu 51,3% nos últimos cinco anos, saltando de R$ 124,7 bilhões em 2020 para R$ 188,7 bilhões em janeiro de 2025, segundo o Boletim Mensal da Dívida Pública Estadual da Secretaria de Estado da Fazenda (SEF).

O estado é a terceira economia do país, mas ocupa apenas a 11ª colocação no Brasil em PIB per capita em 2022, com R$ 44.147, segundo dados do IBGE. Isso se deve a fatores estruturais que as gestões dos últimos 40 anos não conseguiram solucionar, como a baixa produtividade média da economia, a forte dependência da exportação de commodities, a concentração de renda, restrições de investimento público e fortes desigualdades regionais.

O modelo econômico mineiro concentra setores de alto valor em poucas regiões, como a mineração no Quadrilátero Ferrífero e o agronegócio no Triângulo Mineiro, enquanto outras áreas, como o Vale do Jequitinhonha e o Norte de Minas, dependem de agricultura de baixa renda ou serviços informais. As políticas de austeridade limitam investimentos em educação, qualificação e inovação, impedindo que regiões historicamente menos desenvolvidas aumentem sua produtividade e renda.

O estado tem um déficit enorme de servidores efetivos e um grande contingente de temporários e comissionados, em função da falta de concursos públicos. Essa situação afeta a oferta de serviços em áreas essenciais, como educação e saúde, principalmente nos municípios do interior, reduzindo a qualidade do atendimento. Além disso, gera problemas graves para o financiamento da previdência estadual, que é uma bomba prestes a explodir.

Outro ponto crítico é o congelamento e atraso de salários de servidores públicos. Esse processo teve início em 2020, quando a Lei Complementar nº 173/2020 impôs restrições ao aumento de gastos durante a pandemia de COVID-19. A norma suspendeu progressões, promoções e reajustes salariais até 31 de dezembro de 2021. Mais recentemente, o governo Zema aprovou o Decreto nº 48.886, de 28 de agosto de 2024, que prorrogou esse congelamento no âmbito estadual, mantendo a política de arrocho sobre os servidores.

A situação seria ainda pior se não fossem alguns atenuantes que ajudaram Minas Gerais neste período. Por exemplo, em junho de 2018, o então governador Fernando Pimentel obteve uma liminar no STF, concedida pelo ministro Luís Roberto Barroso, que suspendeu o pagamento da dívida do Estado com a União por três anos, proporcionando um enorme alívio às finanças estaduais. Já em 2020 e 2021, durante a pandemia, Minas recebeu cerca de R$ 12 bilhões em transferências extraordinárias do governo federal, recursos que ajudaram a mitigar os impactos imediatos da crise sanitária. Nesse mesmo período, a Lei Complementar nº 173/2020 proibiu reajustes salariais e progressões de servidores até dezembro de 2021, medida que, apesar de prejudicar o funcionalismo, favoreceu os cofres estaduais e municipais. Por fim, em 4 de fevereiro de 2021, o estado firmou com a Vale o acordo referente à tragédia de Brumadinho, no valor de R$ 37,68 bilhões, em negociação mediada pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG).

Foi assim que Zema conseguiu colocar o pagamento dos servidores estaduais em dia; repassar aos municípios recursos referentes aos impostos retidos nos anos anteriores; regularizar o pagamento de precatórios junto ao Tribunal de Justiça; negociar com os municípios o pagamento dos repasses atrasados na saúde; quitar dívidas com fornecedores em atraso; e destinar recursos para investimentos, como as bacias de contenção de cheias, em Contagem.

Enfim, o que os indicadores revelam é que Minas Gerais enfrenta desafios estruturais profundos, que não podem ser resolvidos apenas com medidas temporárias. O equilíbrio de contas alardeado pelo governador é sustentado por paliativos e ganhos momentâneos, como o acordo com a Vale. O que se apresenta como “case” de sucesso sob o prisma da austeridade, na prática, revela uma gestão marcada por fragilidades e fortemente dependente de fatores externos para a manutenção da estabilidade financeira. Por conclusão, o estado necessita de um projeto para a retomada do desenvolvimento, coisa que Zema, definitivamente, não tem.

Zema e a erosão silenciosa da democracia

O livro “Como as Democracias Morrem“, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, oferece um referencial essencial para compreender como a ascensão de líderes como Romeu Zema ameaça a democracia. Os autores demonstram que, no mundo contemporâneo, regimes não sucumbem apenas a golpes militares, mas se deterioram gradualmente, pela corrosão de normas democráticas e pelo enfraquecimento das instituições de controle. Esse processo ocorre quando lideranças optam por radicalizar o discurso, questionar a legitimidade das regras do jogo e explorar ao limite as brechas institucionais, sem necessariamente romper de forma abrupta com a legalidade.

Zema se insere exatamente nesse padrão. Seu antipetismo visceral não é apenas um artifício eleitoral, mas um instrumento de polarização permanente que torna impossível o pacto mínimo de tolerância mútua que sustenta qualquer democracia. Ao atacar o Supremo Tribunal Federal — especialmente o ministro Alexandre de Moraes — e ao propor medidas que reduzem a transparência e limitam a participação popular, o governador adota práticas descritas por Levitsky e Ziblatt como típicas de líderes que corroem as instituições por dentro.

Outro elemento central apontado pelos autores é a “forbearance” (autocontenção): a disposição de governantes democráticos de não utilizar todos os recursos que o poder lhes oferece, preservando o equilíbrio do sistema. O estilo de Zema vai na direção contrária: recusa sistematicamente o diálogo com a oposição, privilegia interesses privados sobre decisões coletivas e procura governar à margem de consensos. Sua falta de autocontenção revela-se tanto em iniciativas autoritárias — como a PEC 24/23, que reduz os mecanismos de proteção contra privatizações — quanto em decretos inconstitucionais, como o que tentou flexibilizar licenciamento ambiental sem consulta às comunidades tradicionais.

Além disso, o despreparo e as sucessivas gafes do governador, embora pareçam anedóticas, reforçam um traço comum de lideranças que conquistam apoio simplificando problemas complexos, mas carecem de consistência para governar. Ao prender-se à narrativa da eficiência e a encenações midiáticas, Zema aproxima-se da figura descrita por Levitsky e Ziblatt: políticos que, carismáticos ou não, colocam em risco a estabilidade democrática ao fragilizar normas, desprezar instituições e governar em benefício de grupos restritos.

Conclusão

A moral deste artigo é que Zema é um vendedor de ilusões. Tenta passar a imagem de um estado com contas equilibradas, em franco desenvolvimento e governado com eficiência e modernidade. Mas, o que entrega é a permanência de déficits estruturais, desigualdade social persistente, precarização dos serviços públicos e políticas que privilegiam interesses privados em detrimento do bem comum. Entre a retórica de gestão técnica, as gafes públicas, o neoliberalismo radical e o antipetismo militante, o governador constrói uma narrativa de sucesso quel lamentavelmente, encontra público atento. O povo mineiro precisa dar adeus às ilusões e parece disposto a isso. Pesquisa Genial/Quaest divulgada em 22 de agosto de 2025 mostra que a aprovação de Zema caiu de 62% para 55% desde fevereiro, enquanto a desaprovação subiu de 30% para 35% no mesmo período. Além disso, 48% dos mineiros afirmam que o próximo governador não deve ser indicado por ele, indicando um distanciamento crescente entre o governador e a população. O papel da oposição, especialmente do PT, será fundamental para aprofundar essa tendência.

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