A revista Carta Capital de 18/11/2025, afirma que a estratégia de Lula para 2026 será o confronto de realizações e de programa de governo: “O presidente Lula (PT) resumiu a estratégia de campanha para derrotar, mais uma vez, o bolsonarismo na disputa pelo Planalto em 2026. O político voltou a indicar que será candidato à reeleição. “Nós vamos fazer comparação entre o que eles fizeram e o que nós fizemos para que o povo não vote nunca mais em uma mentira”, disse Lula, após listar uma série de áreas em que seu governo teria resultados positivos para mostrar, entre elas a ciência e tecnologia, a educação, o transporte, a saúde e o comércio exterior. Para Lula, a comparação garantirá que o voto do eleitor não vá para um candidato que espalhe mentiras nas redes sociais. Neste trecho, criticou os políticos que usam as fake news como estratégia eleitoral: “é uma vergonha a quantidade de mentiras que esse país virou e a quantidade de político cretino que vive o dia inteiro no celular contando mentira”. “Vamos entregar esse país com inflação mais baixa, com juros mais baixos, com salários mais altos e com o povo mais feliz”, disse Lula ainda sobre os temas que deverá abordar na estratégia de comunicação ao longo deste último ano de mandato. “Vai ter eleições limpas e democráticas. Todo mundo vai participar e não vai ter guarda rodoviário proibindo eleitores de votar e nem denúncia de urna falsa”, afirmou. “A minha democracia é assim: disputa quem quer, ganha quem pode e festeja quem ganhar. Nada de chororô”.
Veja só: os governos de esquerda são muito melhores não somente neste terceiro governo Lula; devemos defender a continuidade porque realizamos os melhores governos desde o Plano Real nos últimos 30 anos. Nossos governos de esquerda de Lula e Dilma tiveram avanços extraordinários: crescimento econômico em percentuais acima da média do Brasil nos últimos 30 anos; redução da vulnerabilidade externa da economia; distribuição de renda; controle da inflação; desendividamento e democracia. Veja a seguir uma análise dos principais indicadores econômicos e sociais de um artigo que publiquei na apresentação da cartilha Guia dos Direitos do Povo.
Nos governos de esquerda, o Brasil cresceu acima de 3%. Nos governos do PT e partidos aliados, o Brasil cresceu mais. Nos últimos 30 anos do Plano Real (1995 a 2024), a esquerda governou 15 anos e os partidos de centro, direita e extrema direita governaram outros 15 anos. Pois bem, ao longo de 30 anos, o crescimento médio da economia brasileira foi de 2,34%, sendo que nos governos de esquerda o crescimento de 3,01% foi quase o dobro do crescimento nos outros governos de apenas 1,67% ao ano. Nos governos do PT e partidos aliados, o crescimento da economia teve um conteúdo que marcará a história brasileira. Diversos impasses históricos, que minaram o crescimento da economia no passado, foram enfrentados de forma séria. E com a esquerda foram mantidas estatais fundamentais para o nosso desenvolvimento, como Petrobras, Banco do Brasil, Caixa, BNDES, e outras.
Com Lula e Dilma, Brasil reduziu drasticamente a vulnerabilidade externa de nossa economia. O Brasil cresceu com uma forte redução da vulnerabilidade externa, que no passado quebrou o nosso país diversas vezes, como em 1999 e 2002, quando o Brasil, sem dólares em caixa, se submeteu aos humilhantes e recessivos acordos com o Fundo Monetário Internacional – FMI, que ditava as linhas da política econômica brasileira. O Brasil tinha, em 2002, reservas em dólares de apenas US$ 37,823 bilhões, sendo que as reservas líquidas, descontadas as dívidas com o FMI, eram de apenas US$ 17 bilhões. Nos governos de esquerda, a dívida com o FMI foi paga; realizamos um grande objetivo gritado nas ruas – “Fora daqui o FMI” – e no ano de 2015, pouco antes do golpe político parlamentar contra Dilma, as reservas atingiram US$ 356,464 bilhões; agora mais recentemente, no último ano do governo Jair Bolsonaro, em 2022, as reservas recuaram para US$ 324,702 e, no segundo ano do governo Lula, em 2024, as reservas eram de US$ 329,729 bilhões. Reservas que nos garantiram uma maior proteção contra ataques especulativas contra nossa moeda porque, mesmo quando o dólar dispara, a dívida pública cai porque o governo brasileiro tem exatamente muitos dólares em suas reservas internacionais.
Nos governos de esquerda, o Estado Social chegou aos mais pobres. O Brasil cresceu distribuindo renda, colocando um fim na tese de que “o bolo tem que crescer primeiro para ser distribuído”, com a retirada de milhões de brasileiros da pobreza e incorporação de parte expressiva da população à chamada “nova classe média”. O cientista político Wanderley Guilherme dos Santos disse certa vez que Lula, e não Getúlio, é o verdadeiro “pai dos pobres” porque enquanto Getúlio garantiu direitos para quem tinha carteira assinada, Lula, e também Dilma, levaram direitos para os despossuídos, como o Bolsa Família, Cotas nas universidades, Minha Casa Minha Vida, políticas de recomposição do salário mínimo, e isto explica, em grande medida, a força do presidente Lula, que tem se mostrado “indestrutível”, na expressão de Wanderley Guilherme. 4) Com Lula e Dilma, a inflação foi a menor em 30 anos. Nos governos de esquerda o Brasil cresceu com o controle da inflação, não voltou a hiperinflação como previram e aterrorizaram a mídia e a direita. O Plano Cruzado, do governo José Sarney, que congelou os preços e trouxe para baixo temporariamente a inflação, garantiu uma vitória acachapante do PMDB, o que deixou claro que o povo é a grande âncora da estabilidade de preços; governo que perde o controle da inflação perde as eleições.(…) Os números da inflação no Brasil antes do Plano Real realmente impressionam; como vimos o índice anualizado em junho de 1994, data do lançamento do Plano Real, foi de 4.992% ao ano (período de julho de 1993 a junho de 1994); nos 30 anos de Plano Real (julho de 1994 a 2024), a inflação acumulada foi de 728,26%. Não é realmente impressionante: a inf lação dos últimos 30 anos de 728,26% ser uma fração da inflação de junho de 1994 anualizada de 4.992%? Os governos de esquerda não são lenientes com a inflação, como aterrorizam a grande mídia e a direita. Veja só: o índice médio de inflação nos 30 anos do Plano Real, medido pelo IPCA, é de 6,76% ao ano; nos governos Lula e Dilma o percentual ficou em 6,07% abaixo da média do Plano Real e nos demais governos de centro, direita e extrema direita a média inflacionária foi de 7,44%. A inflação precisa recuar ainda mais, para menos de 5% ao ano, mas nos governos de esquerda a inflação teve os menores índices dos últimos 45 anos na série histórica do IPCA.
Nos governos de esquerda, a dívida pública reduziu e a carga tributária se manteve estável. O Brasil cresceu nos governos do PT e partidos aliados com um processo histórico de forte desendividamento, sem aumento da carga tributária, como comprovam os números a seguir. Trabalhamos com o conceito mais adequado, em nossa opinião, que é a “dívida líquida do setor público” (dívida bruta menos as reservas em dólares e os créditos da União com Estados e municípios da dívida federalizada). Pois bem, a dívida pública no Brasil disparou no governo FHC porque, para sustentar a paridade cambial durante quatro anos, as contas externas do Brasil se deterioram, as reservas em dólares minguaram, a taxa de juros chegou até 45%, parte expressiva da dívida foi dolarizada e vinculada ao câmbio e a dívida líquida do setor público saltou, em oito anos, de 30,01% do PIB, em 1994, para 59,93% do PIB em 2002. Nos governos do PT e partidos aliados, a dívida líquida do setor público recuou de 59,93% do PIB para 35,64% do PIB, em 2015, último ano do governo Dilma devido ao golpe político parlamentar. Em 2022, final do governo Bolsonaro, a dívida saltou para 56,13% e, no final de 2024, no governo Lula, a dívida teve uma pequena evolução para 61,48% do PIB.(…) Ainda na questão fiscal os governos de esquerda, como atualmente, sempre são muito criticados por supostamente aumentarem a carga tributária. Isto não é verdade. A carga tributária no Brasil teve um grande aumento foi no governo Itamar Franco, já com FHC como ministro da Fazenda, visando, de um lado, implementar conquistas da Constituição de 1988 e, de outro lado, arrumar as contas f iscais, através da Desvinculação Receitas da União – DRU, em função do f im do imposto inflacionário e dos juros reais em elevação. A carga tributária, de 25,09%, um ano antes do Plano Real, passou para 28,92%, em 1995, e atingiu 32,09%, em 2002, final do governo FHC. Depois de 13 anos de governos do PT e partidos aliados, em 2015, a carga tributária ficou completamente estável e fechou em 32,10% do PIB. Depois de sete anos de governos de direita, em 2022, a carga tributária atingiu 33,56% do PIB. No terceiro governo Lula, a carga tributária reduziu em relação ao governo anterior, fechando 2024 em 32,32% do PIB.(…) Como se vê, o terrorismo de sempre contra o PT na questão fiscal não tem fundamento, quem mais envidou o Brasil foram os governos de centro, de direita e de extrema direita, mesmo tendo sido os campeões de aumento da carga tributária. Os governos de esquerda financiaram a ampliação dos direitos sociais não foi com aumento da carga tributária, mas, como vimos, com o maior crescimento da economia e o aumento das receitas públicas.
PT e demais partidos de esquerda sempre comprometidos com a democracia. Não se pode esquecer que o Brasil cresceu nos governos de esquerda aprofundando a sua democracia, ao contrário do passado, como na ditadura militar, onde crescemos muito, mas com regimes ditatoriais e autoritários. O PT surgiu na luta contra a ditadura militar e hoje lidera a luta contra a extrema direita, que tem como claro objetivo a instalação de um regime autocrático e autoritário no Brasil.
Brasil precisa ampliar os investimentos públicos e privados para ter um crescimento sustentado e para continuar ampliando os direitos sociais. A continuidade das conquistas sociais no Brasil passa por um crescimento econômico sustentado, o que requer uma forte ampliação da taxa de investimento no Brasil – privada e pública, dos atuais 17% para 25% do PIB, média dos países desenvolvidos. Não tem como aumentar direitos com o aumento da carga tributária, que já está em patamar elevado de 32% do PIB. É por isso que a reforma tributária do governo Lula do consumo e da renda tem sido “neutra”, ou seja, está sendo feita uma redistribuição mais progressiva da carga tributária, como no caso da isenção do IR até R$ 5 mil, redução do imposto até R$ 7 mil e tributação mais forte dos milionários e bilionários, e sem o aumento da carga tributária. O Brasil precisa baixar os juros e para isso precisa arrumar de forma mais sustentada a situação fiscal e, sobretudo, aprovar uma meta de inflação mais realista e compatível com o crescimento econômico; a meta de 3% fixada no governo Bolsonaro, na série histórica de 45 anos do IPCA, só foi alcançada durante três anos. Ou seja, meta de inflação muito baixa é para perpetuar juros muito elevados. E com juros elevados, a dívida pública ficará incontrolável e os investimentos privados não serão ampliados, porque especular será mais lucrativo do que produzir. E o Brasil precisa desarmar algumas “bombas fiscais”, como, por exemplo, a tentativa de mudar o modelo de previdência social, do pacto de gerações, para a previdência capitalizada, já exigida para estados e municípios, que abre rombo de R$ 18,3 trilhões nas finanças públicas no Brasil, uma catástrofe para as finanças públicas nas próximas décadas, que exigirá um ajuste fiscal selvagem muito superior ao que é feito atualmente para o pagamento da dívida pública.
José Prata Araujo é economista.