A série Apocalipse nos Trópicos, da Netflix, escancara um dos capítulos mais controversos da história recente do Brasil: a captura da fé evangélica por um projeto de poder. Como alguém que foi despertado em 2013 para a causa política, e que decidiu se candidatar em 2016 movido por esse mesmo chamado, assisti a essa série com o coração dividido entre indignação e esperança.
O documentário mostra como uma parte da igreja evangélica brasileira foi seduzida por uma teologia travestida de missão: a Teologia do Domínio. Essa doutrina se apoia na ideia de que os cristãos devem conquistar as chamadas “sete montanhas da sociedade”: política, religião, educação, mídia, artes, economia e família. O problema não está na intenção de influenciar positivamente esses espaços — afinal, fé e política se misturam sim. O problema é a motivação e o método: foi-se à guerra para dominar, não para servir; para impor, não para testemunhar.
O presidente Lula, em um trecho do documentário, afirma que um dos fracassos da esquerda brasileira foi ignorar a fé das pessoas. Ele reconhece que o povo acredita, e isso é central. A fé não pode ser tratada como um resquício medieval ou um entrave ao progresso. Ignorá-la é perder a alma do povo brasileiro. Por outro lado, usar a fé como ferramenta de manipulação e controle político — como parte do projeto da extrema-direita internacional — é um erro ainda mais grave, pois não apenas trai o povo, mas também deturpa o Evangelho.
Essa disputa de narrativas revela o desequilíbrio entre dois extremos: um que quer mudar o mundo ignorando o coração humano, e outro que quer salvar almas ignorando a justiça social. Ambas falham. No pensamento judaico, existe a noção de Tikkun Ha’adam (a restauração do homem) e Tikkun Olam (a restauração do mundo). Primeiro, Deus restaura por dentro, no íntimo do ser humano, e só então nos chama a restaurar o mundo quebrado à nossa volta. O erro da igreja retratada no documentário foi tentar transformar o mundo sem se transformar primeiro. Foi buscar poder sem passar pelo quebrantamento.
A igreja foi treinada para transformar o mundo servindo, não dominando. A fé cristã, quando é verdadeira, se manifesta em amor, justiça, equidade, honestidade e serviço. Pessoas transformadas por dentro, que passaram pelo Tikkun Ha’adam, são capazes de atuar com sabedoria e compaixão nas estruturas do Estado e da sociedade. E aqui é preciso fazer uma distinção clara: religião e Estado devem permanecer separados. Mas fé e política se misturam — e devem se misturar — quando a fé inspira serviço e não dominação.
O texto de Apocalipse 17, citado na própria série, mostra a besta assentada sobre as montanhas, indicando que essas esferas da sociedade podem ser tomadas por forças de opressão. Mas também nos lembra que o verdadeiro Cordeiro vencerá. E vencerá não por imposição, mas por testemunho.
A Bíblia está repleta de exemplos de como Deus se importa com a educação, a justiça, a família, a economia. Mas tudo isso a partir de uma lógica de serviço, não de domínio. O “dominar” de Gênesis 1:28, no hebraico original, está muito mais ligado ao “governar com responsabilidade” do que a exercer controle autoritário. É um chamado ao cuidado, não ao autoritarismo.
Quando a igreja se esquece disso, ela se torna refém de projetos políticos que a usam, sugam e descartam. E o nome de Deus, mais uma vez, é envergonhado.
O Apocalipse nos Trópicos é mais do que uma série: é um espelho. E diante dele, cada um de nós precisa decidir se continuará repetindo os erros do passado ou se ousará ser parte da restauração que começa por dentro, para depois se manifestar no mundo.
Kaká Menezes é ex-jogador de basquete profissional, pastor, teólogo e cientista político.