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Keith Richard: Mercado ajusta a rota do autoritarismo de Trump

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Ninguém desafia Trump como o presidente do Brasil” — essa foi a manchete estampada pelo The New York Times nesta quarta, compartilhadíssima em todos os espaços que vi. Considero que a decisão do governo brasileiro de não retaliar imediatamente ou se curvar às ameaças de tarifas mostrou-se um GRANDE acerto de estratégia e inteligência diplomática do nosso governo. Por não retaliar, deixamos Trump na posição de vilão e reforçamos nossa imagem de estabilidade política e econômica perante o mundo. Ao não cedermos, garantimos nossa soberania e reafirmamos nossa visão estratégica de uma América Latina fortalecida e multilateral. Como fã de Xadrez, saímos de um xeque mas estamos em um jogo com menos peças e recuados pelo adversário.

Trump assinou o decreto que impõe uma sobretarifa de 40% sobre produtos brasileiros, somando-se aos 10% já anunciados, totalizando os famigerados 50%. Todavia, pressionado pelo mercado americano, o governo dos EUA recuou parcialmente e isentou 694 produtos brasileiros da lista. Esse ajuste nos mostra que a realidade econômica impõe limites, sobretudo em um governo-mercado marcado por medidas unilaterais e agressivas com o mundo. O Presidente Americano, marionete de seu mercado que tem tanto motivações políticas quanto econômicas, teve que ajustar suas medidas pela pressão de setores dos EUA que dependem de nossos produtos.

Ao chamá-los de Governo-Mercado me refiro ao fato de que vejo a política estado-unidense refém dos interesses das Big Techs e dos bilionários que financiam sua campanha e governabilidade. Dizer que são “influenciados” seria leve demais, haja vista a habitualidade que as industriais americanas, como de armamento e petróleo, tendem a atuar em guerras. Fomos alvo pelo nosso Pix brasileiro, que “atrapalha” as gigantes do cartão de crédito, dominadas por empresas americanas. Além disso, pelo Judiciário brasileiro ter agido contra a empresa X (antigo Twitter) e investigar o papel das Big Techs na disseminação de fake news. Ou seja: o decreto é uma retaliação velada, uma tentativa de enfraquecer nossa autonomia econômica e jurídica.

Outro fator que incomoda os EUA é a nossa aproximação com China e Rússia via BRICS. É interessante para os EUA um Brasil submisso. No decreto, Trump alega que o Brasil representa uma “ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional dos EUA”, citando como justificativas decisões do ministro Alexandre de Moraes contra empresas americanas. Segundo o texto:

“O Juiz de Moraes emitiu unilateralmente centenas de ordens para censurar secretamente seus críticos políticos. Quando empresas americanas se recusaram a cumprir essas ordens, ele impôs multas substanciais, ordenou a exclusão das empresas do mercado de mídia social do Brasil, ameaçou seus executivos com processo criminal e, em um caso, congelou os ativos de uma empresa americana no Brasil, na tentativa de coagir o cumprimento.”

Essa narrativa é absurda e ridícula, que qualquer aluno do nosso ensino médio em Contagem que já estudou geopolítica poderia refutar. O Brasil nunca representou uma ameaça à segurança dos EUA — muito pelo contrário. Acusar nosso Poder Judiciário independente para justificar uma guerra comercial é cinismo puro. Trump tenta transformar uma disputa econômica em um conflito ideológico. O mundo já percebeu seu jogo, mas mesmo assim vejo o multilateralismo perdendo espaço quando é a única forma de combater sanhas autoritárias como esta. O Lula sozinho não conseguirá carregar essa briga.

Apesar da isenção de 694 produtos, itens estratégicos como café, carnes e calçados continuam sob taxação de 50%, que entra em vigor já nesta sexta-feira. O objetivo é forçar os importadores dos EUA a substituírem o Brasil por fornecedores como Argentina, Uruguai e México, enfraquecendo nossa economia, nossa cooperação latina e nossa posição nas Américas. Se conseguirem, os EUA saem fortalecidos como unidade, enquanto tentam dividir nossos vizinhos.

A postura firme do Brasil diante dessa investida autoritária foi acertada. Mostramos que não nos dobraremos a medidas unilaterais e que nossa política externa prioriza a soberania e o multilateralismo. O recuo de Trump, ainda que parcial, comprova que pressão econômica e diplomática funcionam.

A situação política americana pode influir bastante nesse cenário. Hoje, as grandes corporações tem o poder da caneta, mas o povo dos EUA é soberano sobre seu país. Como apresentado pelo Ivanir Corgosinho, em seu artigo “Estará surgindo uma nova esquerda norte-americana?”, tem se popularizado a ideologia de taxação sobre os super-ricos e grandes corporações para financiar despesas sociais, por democratas como Mamdani. Viveremos tempos mundiais diferentes a depender do resultado da queda de braço entre tais forças nos próximos anos.

Em Contagem, como apresentei em artigo anterior intitulado “Protecionismo de Trump afetará Contagem?”, nosso maior ativo relacionado é pela exportação de Máquinas e produtos elétricos, mas também subprodutos de gesso, cimento, aço e pedra. Felizmente, foram produtos apresentados na lista de isentos da sobretaxa de 40%, mas não há motivos para comemorar: nossa relação com nossas cidades vizinhas que produzem café, carnes e frutas também impacta diretamente nossos serviços e a capacidade de compra do nosso povo.

Enquanto a Casa Branca age com truculência, o Brasil segue como um exemplo de estabilidade e resistência democrática. Assisto as atualizações da minha TV, na minha sala de jantar com minha família, pensando como cada movimento político nos afeta como cidadãos. Mais cedo, estavámos comentando da entrevista de Marília no Café com Política falando sobre a importância do Diálogo – Concordo com ela ao confirmar e finalizar dizendo que, ao perdermos a capacidade de conversar e ceder para estabelecer relações ganha-ganha, nós pioramos. Entretanto, Marília nos deixa esperançosos.

Keith Richard Brauer é formado na USP e mestrando em Economia na UFMG. Assessor de Gabinete na Secretaria Municipal de Fazenda de Contagem.

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