É compreensível e até necessário que celebremos os avanços das instituições democráticas contra Jair Bolsonaro, figura que durante a pandemia de COVID-19 demonstrou desprezo pela vida de milhões de brasileiros. Foram mais de 700 mil mortes registradas, segundo o Ministério da Saúde, e inúmeras evidências de negligência e omissão do então presidente. A CPI da Pandemia, realizada pelo Senado Federal, chegou a recomendar seu indiciamento por crimes contra a humanidade. Contudo, é fundamental fazer uma distinção urgente: o bolsonarismo não é uma ideologia estruturada, é um fenômeno de liderança caricata que está se dissolvendo junto com o próprio Bolsonaro. Já a extrema direita brasileira segue ativa, articulada e em expansão, com ou sem ele. O bolsonarismo foi um fenômeno político baseado na figura do expresidente Jair Bolsonaro, sem um programa claro, coerente e consistente. Sua sustentação se deu a partir do antipetismo, da desinformação massiva e da promoção de pautas morais conservadoras. Com a derrota eleitoral e o avanço de investigações criminais envolvendo Bolsonaro, muitos de seus seguidores começaram a se dispersar ou buscar novos representantes políticos. Não se trata de um movimento ideológico sólido, mas de um aglomerado de interesses difusos, ressentimentos e um discurso anticorrupção seletivo, frequentemente marcado pela manipulação de informações. Pesquisas como a da Universidade Federal da Bahia (2019) demonstram que a desinformação foi um instrumento fundamental na sustentação do bolsonarismo, especialmente através de aplicativos como o WhatsApp.
Nos últimos anos, o cenário político brasileiro foi profundamente impactado pela ascensão de uma onda autoritária que muitos identificaram como “bolsonarismo”. No entanto, é preciso reconhecer que o bolsonarismo, embora tenha mobilizado setores da sociedade e da política, não se sustenta como uma ideologia política estruturada. Trata-se de um movimento de caráter personalista e instável, que começa a se dissolver junto com a figura de Jair Bolsonaro. Por outro lado, o que se mantém em movimento e organização é a extrema direita brasileira. Esta, sim, é um campo ideológico com raízes mais profundas e que, com ou sem Bolsonaro, continuará buscando espaço e poder. Compreender essa distinção é essencial para lidar com os desafios do presente e do futuro democrático do Brasil. Nas últimas semanas, o foco das redes sociais progressistas tem sido a comemoração das derrotas judiciais de Bolsonaro. Embora isso ofereça um alívio emocional e sentido de justiça, pode estar nos distraindo de um problema mais grave: enquanto zombamos do homem que em breve será condenado,ignoramos a engrenagem ideológica e política que está sendo mantida viva por novos rostos da extrema direita. Nomes como Tarcísio de Freitas, Romeu Zema, Michelle Bolsonaro, Nikolas Ferreira e muitos outros têm ganhado espaço em diferentes frentes, ocupando cargos estratégicos e mantendo vivas agendas autoritárias, conservadoras e anti-direitos. Eles são a expressão de uma extrema direita organizada, que se movimenta no Congresso, nas redes, nos templos e nas escolas. Essa corrente possui valores estruturantes como o autoritarismo, o ultraliberalismo econômico, o negacionismo científico, a militarização da política, o conservadorismo nos costumes e a aversão às pautas sociais que encontram espaço em setores da sociedade brasileira. A extrema direita se articula por meio de novos nomes e partidos, mídias digitais, igrejas e setores das forças armadas e de segurança pública. Além disso, mantém conexões internacionais com redes globais da ultradireita, fortalecendo seu discurso e estratégias.
Estudos como o da Universidade Federal da Bahia demonstram que a desinformação segue sendo o principal instrumento de atuação desse campo. Em 2018, mais de 79% das mensagens nos grupos de extrema direita continham algum tipo de fake news. Em 2022, a Agência Lupa identificou mais de 160 conteúdos falsos circulando massivamente. Essa estrutura segue ativa, com novos nomes e novas estratégias. Generalizar o eleitorado da direita é um erro estratégico. Boa parte dos votos recebidos por esses candidatos veio de pessoas pouco politizadas, impactadas por mensagens simples, emocionais e muitas vezes mentirosas. Muitos acreditaram em soluções fáceis para problemas complexos. Se quisermos derrotar a extrema direita, precisamos disputar corações e mentes com dados, empatia e comunicação direta. O caminho não é o escârnio, mas sim o esclarecimento. Rir de Bolsonaro pode ser um alívio, mas não é estratégia. O que muda consciências é mostrar resultado. O presidente Lula tirou novamente o Brasil do mapa da fome, segundo a FAO. O desmatamento na Amazônia caiu 22,3% em 2023 (Inpe). A economia cresceu 2,1% em 2025, e o desemprego caiu ao menor índice desde 2014 (IBGE). O programa Desenrola Brasil ajudou milhões de brasileiros endividados. A saúde pública voltou a ser prioridade com a retomada do Mais Médicos. No âmbito municipal, Contagem (MG) se destaca com a gestão de Marília Campos (PT), que têm implementado políticas públicas estruturantes com ênfase social e participativa. Esse trabalho é detalhado na cartilha produzida pelo economista José Prata, que apresenta os dados concretos do governo. No blog de José Prata e Ivanir Corgozinho, há dezenas de artigos escritos por agentes políticos que também mostram os resultados positivos dessa gestão. Não combateremos a extrema direita com memes. Combatemos com informação de qualidade, formação política e comunicação eficaz. A verdade está do nosso lado, mas precisa ser organizada e divulgada com estratégia, constância e inteligência.
A extrema direita segue crescendo. Ela não precisa de Bolsonaro. Precisa apenas do nosso descuido. A cada eleitor resgatado com consciência, a democracia se fortalece. A justiça está fazendo seu papel contra quem violou as regras. Agora, é hora de nós fazermos o nosso: construir um país mais justo, informado e consciente. Frente a esse cenário, torna-se fundamental fortalecer os campos progressistas e democráticos do país. A gestão da prefeita Marília Campos em Contagem é um exemplo de como políticas públicas podem ser conduzidas com responsabilidade, transparência e compromisso com os direitos sociais. Essas experiências locais devem ser valorizadas e compreendidas como parte de uma estratégia mais ampla de resistência à extrema direita, por meio de uma política pública comprometida com a inclusão, a equidade e a verdade. O bolsonarismo está ruindo, mas a extrema direita segue viva, perigosa e em rearticulação. O enfrentamento a essa força requer clareza política, mobilização social, combate permanente à desinformação e a valorização de experiências públicas comprometidas com os direitos humanos e a democracia. Reconhecer que o bolsonarismo é apenas um sintoma de algo mais profundo, o avanço da extrema direita, é o primeiro passo para enfrentá-la com firmeza, inteligência e compromisso com a verdade. Precisamos continuar lutando por um Brasil justo, democrático e comprometido com o bem-estar coletivo.
Poli Dias é presidente de honra da Associação pela Música de Contagem e acadêmica em Gestão Pública.
Fontes consultadas:
– Ministério da Saúde. (2024). Painel Coronavírus.
– CPI da Pandemia – Senado Federal. (2021).
– FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura. (2024).
– INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. (2024).
– IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. (2024).
– Agência Lupa. (2022). Monitor de Fake News nas Eleições.
– Universidade Federal da Bahia. (2019). Estudo sobre desinformação no WhatsApp.