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Rodrigo Freitas: Contra a pequenez, a estatura de Marília

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Nesta semana que se encerra, dois fatos envolvendo a prefeita Marília Campos chamaram a atenção e roubaram a cena política mineira. O primeiro foi um vídeo absolutamente mentiroso protagonizado por um deputado federal e um vereador. Com elementos narrativos teatrais, eles acusavam o governo e, claro, a prefeita, de comprar leite em pó superfaturado em uma cooperativa ligada à agricultura familiar. O produto em questão é para ser utilizado na merenda das escolas municipais. O segundo fato foi a deselegância – para dizer o mínimo – cometida pelo cerimonial do governador Romeu Zema em evento de inauguração da bacia B3, na antiga Vila PTO. Na ocasião, Marília foi “convidada a se retirar” da visita técnica para que Zema e seu vice gravassem, durante longos minutos, vídeos para suas redes sociais, ignorando o fato de estarem cometendo uma indelicadeza com a maior autoridade do Município, eleita, assim como eles, pelo poder do voto.

Em tempos em que verdade e elegância nem sempre caminham lado a lado, não chama a atenção que situações como essas ocorram.Infelizmente. Esse é o Brasil polarizado em que vivemos. E, para aqueles mais equilibrados como a própria Marília, infelizmente também esse é o mundo em que estamos vivendo. A polarização sem eira nem beira é um caminho pelo qual boa parte dos países está passando. Espero sinceramente que sobrevivamos a essa espécie de desatino coletivo em que as discussões mais aprofundadas estão dando lugar ao cometimento de crimes e a um debate de tão baixo nível que soaria como desrespeito relacioná-lo a uma turma de quinta série.

Voltando ao nosso “planeta Contagem”, preciso destacar que vi de perto as repercussões dos dois fatos envolvendo nossa prefeita. Por dever de ofício, acompanho as redes sociais em tempo até maior do que gostaria e fui um dos primeiros a assistir ao tal vídeo. No outro caso, estava literalmente ao lado de Marília quando uma integrante do cerimonial do governador, com ar soberbo e deselegante, a convidou a se retirar, tocando-lhe as costas com o intuito de apressá-la a subir até a área onde seria realizada a coletiva de imprensa para falar de uma obra, que é bom lembrar, o Município executou com o um dinheiro que o Estado só arrecadou porque houve a tragédia da Vale em Brumadinho. Os cerimoniais de JK e Tancredo certamente não fariam tamanha desfeita.

Não vou aqui perder longo tempo resgatando a verdade sobre o leite em pó, o que já foi amplamente feito na esfera política e institucional. Aqui cabe apenas lembrar que, enquanto os opositores disseram que Contagem pagou pouco mais de R$ 51 em cada pacote de 400 gramas do produto, uma simples leitura do edital e do contrato disponíveis no Portal da Transparência da Prefeitura mostra que o Município pagou esse valor por quilo – e também pelo frete – e que o leite em pó seria alocado em embalagens de 400 gramas por questões de logística e armazenamento. Também é importante lembrar que, por força de lei, o Município tem que comprar parte da merenda da agricultura familiar e que esses produtos são um pouco mais caros do que os players do mercado porque são mais artesanais e orgânicos. Ou seja, maldade pura. Má fé. Sacanagem, para falar em bom português.

Também não vou perder tempo alongando a questão do cerimonial, mas preciso dizer que não se tratava de Marília aparecer ou não nas redes do governador e do vice como chegaram a dizer. Embora ela seja republicana e mostre em suas redes os eventos na integralidade – esteja lá quem estiver, inclusive o governador –, Marília não espera o mesmo. Ela apenas espera respeito, delicadeza e lhaneza no trato. São as características que ela tem, inclusive com pessoas que pensam diferente dela. Que o diga o vereador de oposição Pedro Luiz, que estava no evento, e foi abraçado e ouvido pela prefeita em algumas demandas. Coisas de uma política de alto nível que, infelizmente, parece estar démodé.

Mas, voltando ao título destas linhas, o que os dois fatos ocorridos no começo da semana têm em comum? A reação de Marília Campos. E devo dizer que sigo aprendendo com a “chefa”, como costumo chamá-la de maneira carinhosa. De maneira geral, sou mais sanguíneo e reativo e vê-la lidar com essas coisas com tamanha inteligência emocional me ensina a pensar mais antes de agir. É chover no molhado dizer que, pela minha escola jornalística de vida, eu reagiria de primeira em ambas as situações.

Marília, por mais difícil que pareça, faz o caminho contrário. Ao se ver escanteada pelo cerimonial de Zema, ela me disse que iria embora. Ainda argumentei que ela poderia dar a coletiva antes do governador e do vice, que pareciam se empolgar mais e mais na gravação que faziam. Meu instinto profissional é lidar com a imprensa e garantir que Marília apareça na mídia da melhor maneira possível. Ao me ouvir, entretanto, Marília parou, me encarou e questionou:

– Qual o sentido tem em eu ficar aqui e falar nesse ambiente que criaram? Eu vou embora.

Não tive como argumentar. A postura ali não era meramente técnica. Era altivez. Era uma questão de orgulho próprio e estatura política.

Da mesma forma, sobre o vídeo falacioso do leite em pó, Marília teve a paciência necessária para entender as repercussões do conteúdo, a dimensão da mentira e os aspectos legais contidos naquela produção teatral. Ouviu todos os lados. Buscou todos os documentos na Secretaria de Educação. Conversou com todo mundo. E, só então, cercada de toda a segurança possível, gravou um vídeo. Não foi pelo caminho mais simples de dar o troco na mesma moeda com elementos teatrais para criar uma narrativa. Foi olho no olho do espectador. Palavra por palavra com quem a acompanha na rede social. Marília usou o que ela tem de melhor: sua segurança e sua credibilidade para falar nos momentos mais críticos.

Como o próprio vereador que postou o vídeo disse outro dia na plenária, a Justiça vai responder quem está com a razão. No lugar dele, eu estaria com medo. A verdade já veio à tona e promete ser bastante evidenciada em qualquer decisão judicial que se avizinha.

Em tempos de fakenews, de debate político raso e de deselegância anti-institucional em que a liturgia dos cargos pouco importa, Marília é um respiro de lucidez. Que ela possa inspirar a volta da boa política: aquela que enxerga os problemas, atua à base do diálogo para encontrar soluções e fala para todos, independentemente do credo político.

Rodrigo Freitas é jornalista.

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